Resenhas

A guardiã dos segredos de família - Fundação SM

A guardiã dos segredos de família é um texto de ficção com estrutura contemporânea, não linear, muito rica em recursos de linguagem. O personagem principal é Nenenzinha, uma menina ainda. Ela é tia de quatro crianças, órfãs de mãe e abandonadas pelo pai, que sai mundo afora tocando sua sanfona. Todas passam então a ser cuidadas por Sebastião, irmão mais velho de Nenenzinha, e por sua mulher, a bela e cruel Delminda. Impaciente e preocupada apenas com a aparência, Delminda não poupa os enteados do trabalho doméstico e os trata muito mal. A pequena tia, de forte personalidade, já acostumada à aspereza da vida e se valendo de um segredo de família, se imbui então da tarefa de amenizar o sofrimento dos sobrinhos.

Uma narrativa leve, contundente, cujos personagens possuem a força de arquétipos a sobreviver sobre os medos, rancores e sonhos.

In: Marketing da Fundação SM, 24 de agosto de 2010.

A mocinha do Mercado Central - Juvenal Bernardes

Meu nome não é mais o mesmo. Eu não sou mais o mesmo. Nada é o mesmo que era há pouco. A Maria foi chegando devagarinho, assim como quem não quer nada, bem mineirinha mesmo, e arrebatou meu coração. Essa Mocinha do Mercado Central me deu uma alegria imensa, uma vontade de dormir e inventar um sonho improvável, daqueles que a gente sabe que pode mudar o rumo. De vez em quando eu olhava pra ela e achava ela meio parecida com o Dom Quixote. E eu que peguei o livro com tantas coisas garantidas, estou agora aqui, com uma espécie de nó na garganta, mas um nó bom, gostoso de sentir, um nó parecido com um pedaço de maçã engolido sem a devida mastigação. Porque sendo mineiro fica mais fácil entender essa mocinha, sabe. Imagina ter passado a vida inteira ouvindo algumas das frases que estão ali, nas páginas, tornadas agora texto literário. Imagina reconhecer os lugares – ah, é tão bom pra um mineiro essas coisas familiares – e as pessoas, a verossimilhança das situações. Eu sou assim. Ou fiquei assim, não sei mais. É meio mágico mesmo. Este livro é daqueles que a gente lê e se apaixona. Eu me apaixonei. Vou mostrar para os meus amigos de Dores do Indaiá e dizer pra eles: "Olha, a Stella é de lá, de Dores". E eles vão fazer assim com a sobrancelha e exclamar "Puxa! Ela é de lá então?" ou então vão pedir o livro emprestado pra ler. E agora, quando eu for ao Mercado Central comprar queijo canastra ou algum badulaque pras minhas palhaçarias, vou lembrar da Maria passeando por lá, vou comer um biscoito de queijo e lembrar dela. Dela e do rapaz de olhos muito negros. Talvez eu até dê uma esticadinha até a praça Raul Soares pra ver se ele vai estar lá, desenhando. Se estiver, vou ficar olhando, assim, meio de longe. Vai ver que o rosto que ele desenha é o meu. Agora vou retomar a leitura das Mil e Uma Noites. Stella, isso tudo que vai aí é uma tentativa de dizer o quanto o livro me arrebatou. Acabei de lê-lo exatamente agora – 22:11 do dia 17/9/11, um sábado quente e seco aqui no Oeste de Minas. Vou levar o livro segunda-feira para a escola – é, eu também sou professor (literatura – tem como ser professor de literatura?) – e vou recomendá-lo muito a meus alunos. Tenho a impressão de que as minhas alunas é que vão se apaixonar mais por ele. Penso que esses meninos precisam entender que eles podem ser maiores que aquilo que os seus nomes dizem. Que é possível sonhar outras vidas, outras possibilidades. Ou, mais simplesmente, que é preciso sonhar. Muito obrigado pelo prazer dessa leitura maravilhosa. Já vou atrás de outros de seus títulos. Quero entrar pro fã-clube também.

In: email de setembro de 2011
Juvenal Bernardes, professor de literatura e contador de histórias

A mocinha do Mercado Central - Daniel Ribeiro

Neste novo livro, Stella Maris Rezende mostrou que fantasia e realidade podem se misturar, e sim, pode dar certo. A mocinha do Mercado Central é a prova disso. Recheado de mistério, diversão, drama e realidade, o livro faz a gente entrar na vida de Maria Campos, ou Zoraida, Teresa, ou quem sabe, Simone, ou talvez Miriam. Pode ser também Nídia, Gilda e Selma. É um verdadeiro enigma. A gente sai de Dores do Indaiá e viaja para Brasília, "nome que parecia o feminino de Brasil". De Brasília partimos para São Francisco, "não da Califórnia, lógico, mas do norte de Minas", depois seguimos para São Paulo, Belo Horizonte, e então chegamos à cidade maravilhosa, Rio de Janeiro. "A próxima viagem seria para Cataguases", mas Maria mudou de itinerário, quando se lembrou que o Otto nascera em São João Del Rey, a cidade dos sinos. Deu vontade de conhecer essa tal cidade dos sinos, o lugar onde nascera o escritor engraçado que dizia que "escrever é de amargar"... Do Rio para São João Del Rey foram poucas horas de ônibus", e então, depois de todas essas viagens, retornamos para Dores do Indaiá, cheios de histórias para contar, com boa parte de tudo aquilo que um dia foi dúvida, esclarecido, com a notícia na qual sua mãe não acreditaria e também não gostaria nem de saber, com sua vida completamente mudada.

As aventuras são contadas de tal forma que a gente começa a sentir, junto com a personagem, todas as suas angústias, medos, vontades, tudo, e então nos prende até as últimas páginas do livro. A única coisa que não senti foi arrependimento de ter lido o livro completo. Sofri, sorri, quase morri junto com a personagem, fui forte junto com ela e enfim descobrimos o que nas primeiras páginas eram enigmas. No fim, tudo se encaixa de maneira surpreendentemente surpreendente, deixando aquela vontade de ler mais, saber se vai haver alguma continuação ou então, a gente começa a fazer a nossa continuação, tornando-o um livro interessante, bom e saboroso de ler. Esse trabalho é diferente de tudo o que a Stella Maris Rezende já fez antes, totalmente diferente, com outras palavras, com outro olhar. Ela escreve para jovens e adolescentes, mas esse livro, na minha opinião, é total e altamente recomendado para todas as idades, e sem perder aquele toque mineiro que ela dá aos seus livros, "com cheiro de broinha de milho e café quentinho".

In: Culteen – O "Brog" da Arte de ser Adolescente
Daniel Ribeiro é estudante e faz parte do fã-clube da escritora

A mocinha do Mercado Central - Vinicius Vieira

Mesmo tendo lido muitíssimos livros, apenas três me despertaram tristeza, pesar, e ainda assim felicidade sem tamanho ao chegar à última página, que foram: O Morro dos Ventos Uivantes, O Livro do Amor de Julia e Tomás e A mocinha do Mercado Central. Fiquei comovido, intrigado, feliz, amante, livre e acima de tudo satisfeito e contente. Senti um privilégio de ler. Como se depois das últimas linhas eu fosse a tia Marta, como se eu, o leitor, tivesse o verdadeiro privilégio de contar aquela história a mim mesmo.

"Sob a pele das palavras há cifras e códigos". Na mesma hora eu sorri e me emocionei. Voltei à capa do livro e li: Stella Maris Rezende, e tive certeza. Ela, minha amiga, a quem eu admiro, mais uma vez "sob a pele das palavras" soube desvendar inúmeros códigos. Eu li esses códigos.

Maria Campos. Selma. Nídia. Miriam. Simone. Zoraida. Teresa. Eu fui todos esses nomes em cada entrelinha, em cada palavra, parágrafo e capítulo. Eu pude sentir o cheiro do café, o gosto do biscoito de queijo e lembrar do moço que estava sentado naquela praça, desenhando.

Eu senti a dor do menino cansado, eu vi a tristeza e a angústia na história da Bernardina Campos, e vi os olhos de piedade do Eugênio.

Eu senti, eu me emocionei, eu vivi, mais uma vez, uma história. E eu penso ao chegar ao fim do livro: como é bom sentir essa história, como é bom ver esses personagens tomarem conta dessa atmosfera onde eu leio, e me impulsionarem a sentir, sentir e sentir.

Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi, nem acabei. De tanto ser, só tenho alma.

Mais uma vez eu me impressionando, emocionado e estando vidrado, amarrado por conta própria e apaixonado a cada palavra escrita em A mocinha do Mercado Central.

São poucas as vezes em que podemos estar de frente a algo realmente emocionante. A escrita de Stella Maris Rezende me encantou, mais uma vez.

"É mágico imaginar como cada mistério será desvendado ou apenas lembrado para sempre". As palavras falam sozinhas, sem precisar esboçar nenhum sentimento, apenas esperando que quem está lendo sinta, e, esse sim, desperte o sentimento em si.

Stella Maris Rezende mais uma vez me emocionou, e me proporcionou uma das leituras mais intensas da minha vida.

In: email de junho de 2011
Vinicius Vieira é estudante e faz parte do fã-clube da escritora

A mocinha do Mercado Central - Selton Mello

Escreveram meu nome no arroz. Só algumas pessoas, de vez em quando, devem querer parar um pouco, pegar esse grão de arroz e ver dentro dele o mundo inteiro, porque dentro dele existe um trabalho, uma ternura, um esforço.

E foi assim que me vi personagem deste romance saboroso e inventivo, escrito por uma pessoa que nem sequer conheço, mas que me encantou com sua escrita inspirada.

Essa pessoa escreveu meu nome no arroz.

E eu vi um mundo inteiro lá dentro.

Para um sonhador, isso não foi pouca coisa.

E as aventuras da menina protagonista deste livro encheram meus olhos e minha imaginação.

Espero que aconteça o mesmo com quem estiver lendo estas linhas.

Em tempos anêmicos, essa leitura faz sonhar e encher o peito de alegria.

Aproveite bem o que tem nas mãos...

Suspenda a correria e procure enxergar o que está escrito no arroz.

A vida será bem melhor depois disso.

In: A mocinha do Mercado Central, il. Laurent Cardon, SP, Globo, 2011
Selton Mello é ator e diretor de cinema

A mocinha do Mercado Central - Globo Livros

Maria Campos. Este era o nome completo da mocinha do interior de Minas Gerais. Pouco, pensava ela. Principalmente se comparado ao da amiga Valentina Vitória Mendes Teixeira Couto. Faltava-lhe o sobrenome do pai, já que fora concebida em uma circunstância trágica. Mas o que pode representar de fato um nome? Valentina, a quem Maria no princípio acharia meio enxerida, e que acabou por se tornar uma grande amiga, sabia de cor o significado de todos eles. Da situação adversa, Maria tirou ideia que a colocaria em uma sequência de aventuras: adotaria em cada lugar por onde passasse uma personalidade que correspondesse ao sentido do nome escolhido.

Este é o enredo do livro de Stella Maris Rezende, com ilustrações de Laurent Cardon e uma participação especial do ator Selton Mello, que não apenas faz a apresentação, como também aparece na história como referência afetiva para a personagem principal. A mocinha do Mercado Central tem a peculiaridade de se situar entre o romance, que narra o desenvolvimento de uma protagonista, e uma sequência de contos que se desenrolam em diferentes cidades por onde ela passa. A obra fala da vida em uma fase de transformações, cheia de descobertas e desafios. Fala, em síntese, do desejo de liberdade que só é alcançado com a coragem de se reinventar a cada nova relação.

Mesmo estando em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Brasília, Maria nunca perde o jeito mineiro. E a narrativa de Stella Maris, cheia de lirismo e imaginação, mantém uma descrição vívida e realista das personagens e lugares, e garante a autora na tradição dos grandes prosadores das Gerais.

In: Catálogo da editora Globo, SP, 2011

A mocinha do Mercado Central - Ricardo Benevides

"Não sei quantas almas tenho". O famoso verso de Fernando Pessoa está nas páginas deste livro, leitor. E você também está! Pode não saber, mas esta história tem algo de você, de toda gente. Pra entender bem, precisará conhecer Maria Campos, a mocinha do Mercado Central. Ela passeará diante dos seus olhos, passando por diferentes cidades brasileiras. Se prestar bastante atenção, vai ver que o sotaque do livro é mineiro, que ele tem gosto de pão de queijo e uma descoberta a cada capítulo. Prepare-se para maravilhas, tristezas, sonhos e reviravoltas. Mais que tudo: abra o coração e se emocione com a escrita íntima e delicada de Stella Maris Rezende. Por fim, talvez encontre outras almas que tem dentro de si.

In: A mocinha do Mercado Central, il. Laurent Cardon, SP, Globo, 2011
Ricardo Benevides é doutor em Literatura Comparada, professor e escritor

A mocinha do Mercado Central - Jacob Pinheiro Goldberg

O denominado "romance de formação" é pouco explorado na literatura brasileira. Por outro lado, trata-se de um gênero literário de importância singular para se entender a complexidade do mundo jovem.

Stella Maris Rezende pincelou em A mocinha do Mercado Central, com maestria e talento, o mundo subjetivo da mocidade. E uso de propósito o vocábulo desusado. Mocidade. Para combinar com as fórmulas mágicas da autora, que consegue mergulhar em nostalgia de um Brasil que aprecia o "bem-te-vi" e é, simultaneamente, contemporâneo.

As páginas transitam de uma aparente inocente ingenuidade até os conflitos existenciais mais complexos, numa sofisticação que garante ao livro um lugar privilegiado para a doce e difícil aventura de viver.

Pinço, ao acaso, o psicodrama do personagem Tadeuzinho, um menino de apenas oito anos que estava cansado, muito cansado, e morreu. Mas antes de morrer pedia e pedia para ouvir histórias.

Uma autêntica saga de Sherazade em que a narrativa sustenta a vida, que por sua vez empresta sentido ao mágico e transcendente.

E este mágico e transcendente que recolhe na melhor tradição brasileira, mineiridade pura, mas que também se envolve com Fernando Pessoa.

Cinema, literatura, teatro, o romance de Stella é um roteiro de filme nas retinas de todas as idades.

A ficção e o concreto dançam entre as divagações e a prosa. Uma prosa que lembra, profundamente, o fluxo inconsciente da psicanálise e, por isso, o mais moderno do que se produz hoje no campo da Estética.

Tristeza e alegria, dúvidas e certezas são o material fervente deste livro de cabeceira na era vertiginosa da internet e dos satélites que precisam conviver com a ternura, o sonho, a esperança.

Este livro-roteiro no caminhar das ruas, nos monólogos e diálogos, nos envolvimentos, desenha o percurso perturbado e perturbador, agridoce na suavidade de como se caminha, caminhando.

In: A mocinha do Mercado Central, il. Laurent Cardon, SP, Globo, 2011
Jacob Pinheiro Goldberg é doutor em psicologia e escritor

Esses livros dentro da gente - Alunos da Profa. Sandra Vivacqua Von Tiesenhausen

"Esses livros dentro da gente", de autoria da professora, atriz, contadora de histórias e escritora STELLA MARIS REZENDE, com ilustrações do artista plástico EDUARDO ALBINI, é um convite a uma encantadora conversa, um desafio a que criemos nossos próprios textos. E como fazer? Stella Maris Rezende explica que é preciso saber olhar, com emoção e respeito, todas as coisas que fazem parte do cotidiano.

A obra traz dicas de como escrever e propõe mudanças, que busquemos a leitura, da natureza, das pessoas, de tudo que faz parte do nosso cotidiano. Segundo Stella Maris Rezende, tudo o que nos rodeia tem algo a nos dizer.

O eu-lírico da autora mostra uma visão otimista e bela sobre a vida, percebe-se uma crítica ou ainda uma angústia diante da correria do dia-a-dia onde não percebemos as coisas belas em tudo que nos cerca. A leitura de "Esses livros dentro da gente" nos deixa reflexivos com relação à rapidez e ao dinamismo que nos propomos a viver, a falta de tempo em contemplar o belo, o poético e a natureza.

"Esses livros dentro da gente" é uma obra literária que é um incentivo a escrever, a criar...

é por meio de versos que a autora aconselha o leitor a mergulhar profundamente no mundo mágico das palavras.

Ainda por meio de seus versos faz com que o leitor observe tudo que está ao seu redor, e, portanto, se inspire, se indague, convide diversos autores a brindarem e fazerem parte de sua leitura e futura talvez escrita, pois tanto o leitor quanto o escritor deve ser livre.

Stella Maris Rezende incentiva a leitura descompromissada, e o descompromisso aqui é com os didatismos impostos pelas escolas que para tudo têm uma intencionalidade que em nada auxilia na formação de um leitor, visto que ninguém forma ninguém em nada, deve sim é possibilitar que o leitor utilize sua voracidade, lhe permitindo o contato com o maior acervo possível.

Essa obra é composta por 57 páginas. Cada página é um convite incessante e encantador para que o leitor, se for de sua vontade e prazer, se torne um escritor. "Esses livros dentro da gente" é marcado pelo desejo de encantar e ao mesmo tempo de inquietar o leitor.

"Um livro maravilhoso escreve outros livros dentro da gente."

O grupo recomenda como proposta emergencial a inserção dessa obra no acervo das leituras escolares, pois além de ser um guia para jovens escritores, trata-se de uma obra extremamente motivadora para que as crianças e os jovens possam se colocar na condição de escritores independentes e livres no que diz respeito à criação e à imaginação.

A realização dessa atividade no decorrer de um curso de formação de professores leitores é algo indispensável, principalmente do ponto de vista da riqueza do conteúdo para uma reflexão do professor que posteriormente estará mais bem preparado para desenvolver junto aos seus alunos práticas de leitura literária.

UnB- Disciplina: Oficina do professor-leitor, Profª Sandra Vivacqua Von Tiesenhausen, com os alunos Camila Nakatani, Eder Gondim, Josivaldo Menezes, Leandro Freire, Naryane Mesquita, 2010.

Família contadeira de histórias - Luiz Raul Machado

Da Minas profunda à Brasília grávida de futuro, o itinerário de Stella Maris Rezende é feito de palavras e temas delicados que chegam lá dentro do coração e da mente dos leitores jovens de todas as idades. Rotulada às vezes de infanto-juvenil, sua literatura dispensa adjetivos. É literatura da melhor fabricada nestes Brasis.

Família contadeira de histórias, seu livro mais recente, é um filme.

Cada capítulo é uma cena que registra o depoimento de um membro desta família tão comum e tão especial. De Dores do Indaiá à capital federal, dos avós ao neto cineasta, Stella Maris desfia seu documentário, ora escondendo caprichosamente, ora revelando segredos.

A locação, um alpendre mineiro que só falta falar. Falta?

O cheiro, do café coado na hora e do doce de mamão.

Os closes, dos rostos vividos em que os sentimentos mais fundos saltam pelos olhos. As vozes, que recriam o painel bordado com a memória das personagens. “Com a memória, a riqueza que elas têm”. A mãe diz: “Foi o Érico Veríssimo que me deu alento. As palavras dos livros dele.”

As palavras dos livros de Stella Maris nos dão alento. E emoção. E esperança.

Luiz Raul Machado, 2009

In: Família contadeira de histórias – no prelo

Luiz Raul Machado é escritor premiado e especialista em Literatura Infantil

Abracadabra! Nasce um livro - redação do Correio Braziliense

Stella Maris, a contadora de histórias

De onde vêm as histórias fantásticas? Dos livros. E como eles são feitos? Foi isso o que estas crianças aprenderam.

Como um punhado de palavras escritas e acompanhadas de ilustrações conseguem mexer com a imaginação das pessoas? Como explicar a mágica que envolve o ato de ler? Da onde vêm as histórias e contos fantásticos cheios de aventura que quase nos levam a outro mundo?

Essas perguntas parecem complicadas, mas na verdade não são tão difíceis de ser respondidas. Algumas crianças de Brasília puderam descobrir isso fazendo uma visita organizada pela escola à livraria Paulus, onde participaram da atividade Livro: Assim é que se faz. Lá eles aprenderam de onde vêm as boas histórias que preenchem as páginas dos livros e como eles chegam até as pessoas.

Alunos da 1ª. e  2ª. Série do Colégio Pio XII foram à livraria em junho, no dia 23. Na chegada, eles foram recebidos pela escritora Stella Maris Rezende. Depois de percorrerem os corredores cheios de livros, as crianças foram para o auditório da livraria, onde Stella Maris comandou uma gostosa brincadeira.

Logo, ela quis saber quem ali gostava de ler e teve uma agradável surpresa: quase todo mundo levantou a mão, aos gritos de “Eu! Eu!” . Stella perguntou, então, de onde vêm as histórias. O esperto Felipe Lima de Castro, 7 anos, aluno da 1ª. Série, resolveu arriscar: “Da imaginação dos escritores”. Na mosca! Foi o gancho perfeito para Stella Maris contar como ela escreve um livro. “Às vezes, a gente passa até dois anos escrevendo e reescrevendo uma história”.

Ela também contou que cada escritor tem um jeito diferente de trabalhar. Tem gente que gosta de observar o mundo à sua volta, tem gente que estuda e analisa a realidade. Também tem quem libera a imaginação e cria um mundo totalmente diferente do que a gente conhece.

Todos bem juntinhos
Os alunos assistem a um vídeo, que explica passo a passo o processo de fabricação dos livros. Desde a digitação feita pelo autor, passando pela revisão, a criação de ilustrações, a diagramação e por fim, a impressão.

- Não imaginava que fosse um processo tão detalhado. Muitas pessoas trabalham para fazer o livro, né?, constatou Júlia Ferreira Santos, 8 anos, que está na 2ª. Série.

A melhor parte do passeio fica para o final. Stella Maris Rezende faz um círculo com os alunos, e todo mundo fica bem juntinho e atento, porque é hora da contação de histórias. Com uma interpretação bem divertida, a autora narra as grandes aventuras, como A terra dos mais belos desejos,  um de seus livros mais recentes, entre muitas outras.

- Adorei as histórias, e achei legal saber como é que ela fez para escrever o livro, revela a aluna da 2ª. Série Karen Lorreny Ferreira Campos, 8 anos.

Assim é que se faz
O projeto ocorre na livraria Paulus (Setor Comercial Sul, Quadra 1, Edifício Central, Térreo). Além da palestra, do vídeo, há um concurso de redação. A contadora Therezamaria também participa da contação de histórias. As escolas interessadas em participar do programa no segundo semestre podem agendar na livraria Paulus, pelo telefone 32259847.

Correio Braziliense, Caderno Super!, sábado, 9 de julho de 2005

Coração brasileiro - Manuel da Costa Pinto

A sensibilidade artística precede as diferenças entre os gêneros literários – e por isso não chega a ser surpreendente que uma premiada escritora de livros infanto-juvenis como Stela Maris Rezende tenha sido a vencedora da segunda edição do Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira na categoria conto.

Autora de vinte e seis livros publicados, esta escritora nascida em Dores do Indaiá (MG) e hoje residente em Taguatinga (DF) consegue a proeza de conciliar a cor local e as matizes do cotidiano com epifanias que transcendem tempo e espaço. O próprio título do livro, Coração brasileiro, indica que a obra oscila entre a representação de dores ou alegrias que pertencem a todos nós (seres humanos) e um profundo enraizamento na vida e em costumes que marcam a experiência de todos nós (brasileiros).

Mas essa oscilação também se dá na dimensão temporal de suas narrativas. Os contos de Stela Maris Rezende estão impregnados por uma atmosfera de cidade de interior, de vida provinciana, de passado familiar; ao mesmo tempo, essas personagens que transitam pelos quintais e ruas da memória carregam as angústias cosmopolitas de um tempo em que o lirismo da vida cotidiana é submetido a um massacre diuturno, em que a solidão urbana, a alienação e a insensibilidade alheia parecem ser nossa melancólica condição. (Não por acaso, várias das personagens de Coração brasileiro encontram refúgio e consolo no universo dos artistas de TV e nas canções melosas dos cantores populares, que são uma forma sutil de prótese emocional).

Há, portanto, um sentido crítico (social e existencial) por trás do intimismo de Stela Maris Rezende. Afinal, a escrita em surdina de seus contos é uma espécie de imagem em negativo de nossa realidade degradada; como resposta aos traumas pessoais e ao anonimato dessas vidas cinzentas que percorrem Coração brasileiro, ela nos oferece uma superação que se opera pelo cultivo da sensibilidade: uma salvação pela palavra poética.

Mas talvez o modo mais direto de expressar a importância desse livro seja simplesmente dizer que ele foi selecionado por uma comissão julgadora composta por três de nossos mais importantes contistas contemporâneos: Vera Albers, Luiz Ruffato e Nelson de Oliveira.

In: Coração brasileiro. Prêmio Redescoberta da Literatura Brasileira/categoria conto/Revista Cult. São Paulo, Lemos, 2003

Manuel da Costa Pinto é jornalista, editor e apresentador de TV 

O estético possível na literatura juvenil - Cátia Toledo Mendonça

Suas obras não se caracterizam pelo uso de uma linguagem simplificada, que favoreça a leitura rápida e fácil, sem que faça pensar ou exija muito raciocínio, como são as obras da literatura de massa. Ao contrário, a leitura da obra de Stela Maris Rezende exige atenção, concentração e, às vezes, até mesmo uma olhadinha no dicionário, à procura de uma palavra desconhecida, que nem sempre encontramos.

É que seus textos trazem a marca de um outro mineiro – João Guimarães Rosa – o eco de uma mineirice que não se rende ao eixo Rio-São Paulo, que não se avexa em resgatar o mítico, a religiosidade. O universo mineiro, do interior – principalmente de Dores do Indaiá – é reconstituído. No final da leitura de seus textos, ficamos com o eco das expressões mineiras, com as imagens de rios, grotões, paióis e monjolos, que tomam o leitor.

Seus textos não são endereçados a uma faixa etária determinada: consideram o leitor inteligente. Seus personagens são adolescentes, estão apaixonados, mas este fato não é apenas a moldura para mais um mistério a ser resolvido por um grupo de meninos, que se percebem mais fortes e valentes que os adultos. Quando estão em grupo, os jovens se divertem, namoram, não há o enfrentamento com o adulto, que caracteriza a literatura juvenil desde a década de setenta. (...)

Esse compromisso com a Arte e não com o mercado se afirma ao longo da leitura de sua obra. Outro elemento que comprova essa postura é a presença da religiosidade.

Enquanto as obras que fazem parte dos diversos catálogos das editoras em evidência têm por tema os jargões da modernidade, Stela Maris Rezende resgata a religiosidade, tão mineira, mas também tão na contramão de nossos tempos, quando se escreve para jovens. Sem ser piegas, sem adotar o discurso de magos e bruxos, a autora revive o sentimento de religiosidade, resgata o mítico, do qual todos nós andamos afastados.

Outra constante na obra desta autora é a intertextualidade. O conhecedor da obra de Guimarães Rosa vai encontrar em seus textos várias palavras que foram cunhadas primeiro por esse escritor, o que nos remete diretamente a Grande sertão: veredas  e a Sagarana, além da valorização da cultura popular, dos temas regionais. (...)

O que fica claro é que Stela Maris Rezende não se curva às necessidades do mercado, que determina a facilitação, o uso de um vocabulário simples e atraente para o jovem. Esta autora, ao contrário, parece a cada obra refinar mais e mais o seu trabalho com a escrita, fazendo de seu texto um bordado, a cada nova publicação, mais caprichado.

As semelhanças entre Stela Maris e Guimarães Rosa não se limitam à linguagem, o que já não seria pouco. Assim como seu conterrâneo consagrado, esta autora busca o sertão, a cultura popular, a complexidade das personagens e da construção como características, independentemente das tendências atuais.

Haroldo Bloom lançou recentemente, no Brasil, uma antologia de textos destinados ao público jovem. Em entrevista à Folha de São Paulo, o crítico norte-americano condena a categoria “literatura para criança”, fruto dos séculos XIX e XX, quando teve muita utilidade de algum mérito, mas que “agora é, muitas vezes, a máscara de um emburrecimento que está destruindo a nossa cultura literária”.

Em suas antologias reuniu “prosa e verso para jovens leitores” como uma reação à obra de J.K. Rowling: Harry Potter, que é sucesso mundial e, para ele, é “uma das obras mais mal escritas” das que leu em anos. No entanto, não se pode negar o sucesso de vendas, alavancado por uma expressiva campanha de marketing. Qual o critério utilizado para a compra e leitura dessa obra?

Contos e poemas para crianças extremamente inteligentes de todas as idades traz uma seleção de obras escritas antes da primeira guerra mundial, por autores em torno dos quais há uma unanimidade, como Shakespeare ou Walt Whitman, mas que, a princípio, não foram escritas para crianças.

O que Bloom valoriza na hora de escolher os textos é a qualidade da obra, seu valor estético, não a facilidade. E diz mais: “Acredito que no Brasil seja igual, que vocês tenham fantásticos autores que não são mais lidos, pois as crianças só querem ler Harry Potter”.

Stela Maris é uma autora que poderia e deveria ser muito mais lida do que é. Sua obra, como vimos neste ensaio, tem a marca do estético em todos os aspectos, volta-se para o jovem, mas não o faz de forma mercadológica: volta-se para o lúdico, mas não o transforma em tolice.

A literatura escrita por esta autora também é para crianças inteligentes, sejam elas adolescentes ou, como disse Bloom, “crianças extremamente inteligentes de todas as idades, incluindo eu mesmo como uma criança de 72”.

Se há quem questione a categoria Literatura Infanto-Juvenil, ninguém há de questionar uma outra: a boa. É o que produz Stela Maris Rezende: a boa literatura, de que andamos carentes.

In: Literatura Dos Anos 90. Diversidade Cultural e Recepcional. (org.) Marcella Lopes Guimarães. Curitiba, Juruá, 2003

Cátia Toledo Mendonça é professora de Teoria da Literatura, Literatura Infanto-Juvenil e Literatura Brasileira da PUC/Paraná

Segredos da contadeira - Paulo Paniago

Admirar coisas sem nenhuma importância, ter um caderninho sempre à mão, saber ouvir mentira e chuva batendo no telhado, ser insatisfeito, ter a cabeça nas nuvens. Nada disso parece pertencer ao mesmo conjunto, até que se leia Esses livros dentro da gente,  de Stela Maris Rezende. O subtítulo reforça a dica: Uma conversa com o jovem escritor. Há anos, a escritora visita escolas de Brasília para bate-papos com alunos. Inevitavelmente, escuta a pergunta: “Que dica você dá para o aspirante a escritor?” A resposta não é única, como se nota com a leitura do livro.

É um caso de paixão sem remédio com a palavra, que se reflete até mesmo nesses detalhes: a editora se chama Casa da Palavra; a livraria onde será o lançamento hoje em Brasília, Esquina da Palavra. Stela confirma: “O que existe é a paixão, aflição gostosa, agonia saudável”.

“Tem que tomar chá com Cecília e Clarice”, ensina Stela Maris. E também convidar outros autores. O texto passeia sempre pelos úteis conselhos, mas sem esquecer uma certa cadência, a sonoridade poética que as dicas podem ter. “Tem que saber ouvir o motor de poesia do vôo de um beija-flor”, recomenda. “Vê-lo ficar estátua, com as asinhas batendo pausas. E nada de imprudências, vê se deixa o beija-flor fazer o serviço dele”.

Tem algo que Stela não diz, no livro. A respeito de planejamento. Mas a autora de 26 livros nunca começa uma história que saiba aonde vai dar. “Vem uma frase, eu fico brincando com ela, com alguma prosa, e a história se forma”. Herança de uma relação peculiar que Stela Maris teve com os irmãos e primos. Reunia todos em volta dela com a senha: ”- Quem quer ouvir uma história?”. Só então é que, rodeada de auditório, ela enunciava um “era uma vez” mágico, também sem saber que história seria, mas ela vinha, naturalmente. O método dava certo na infância, continua valendo hoje.

Herança que mistura dupla influência: a vó Chiquinha, contadora nata, a tia Marta, a vizinha Marlene, a mãe Célia, “uma grande contadeira de histórias”, por um lado, na infância em Belo Horizonte (embora tenha nascido em Dores do Indaiá); e Guimarães Rosa, por outro, no que ele tem de “mineiridade”. Mas como definir isso, mineiridade? Stela Maris sorri, finge que não sabe, depois começa a dizer: “É assim uma visão de mundo introspectiva, sisuda, mas com muita ternura, ironia, uma certa melancolia”. E ainda: um uso constante de palavras inventadas. Tipo embondo (embondo quer dizer cheio de nove horas, estúrdio significa estranho, pantasma é variante de fantasma, indaqueiro é um inventor de moda. Se não ouvir essas, você ouvirá outras expressões parecidas quando falar com ela). “Todo escritor tem que observar, assuntar, ouvir muito”, completa.

Mineiridade também se traduz num jeito de receber as visitas, num café passado na hora, hospitalidade aconchegante. Um jeito de vestir, discreto e cuidadoso, um sorriso tímido, firme. Outros indícios: ter em casa um quarteto de cães de várias raças. O weimaraner Júpiter, o beagle Téo, o pintcher Bóris e o pequinês Sávio. Ou uma escada no fundo do quintal da casa que não dá para lugar nenhum. Na verdade, dá em pequeno quartinho usado para guardar entulhos de reformas na casa. Uma jabuticabeira de 13 anos de idade que reúna a família para lhe catar os frutos duas vezes por ano também ajuda. Nas outras reuniões de família, os motivos para agregar serão outros.

Entre a velha Olivetti Studio 46, onde nasceram os primeiros livros e mantida no escritório como um troféu, e o computador que permite rapidez nas correções (Stela Maris sabe: escrever é reescrever, e geralmente para cortar palavras), ela se equilibra gentilmente, pronta para dar dicas. “Quem quer escrever, escreve”, diz o texto de Esses livros dentro da gente. “Principalmente, se terminou de ler um livro maravilhoso. Um livro maravilhoso escreve outros livros dentro da gente. É preciso saber ler esses livros dentro da gente”.

CORREIO BRAZILIENSE, Brasília, quarta-feira, 27 de novembro de 2002

Paulo Paniago é mestre em Literatura Brasileira, jornalista e escritor

Esses livros dentro da gente - Magda Frediani

Neste livro, a autora convida o jovem leitor para uma conversa encantadora sobre a arte de escrever. Nos “conselhos” cheios de poesia, ilustrados com delicadeza pelo artista plástico Eduardo Albini, a autora convida meninos e meninas, e também “jovens” de todas as idades, a se envolverem pela magia das palavras e a aceitarem o desafio de criar seus próprios textos. Ao dialogar com um escritor imaginário – que somos todos nós, leitores – Stela Maris Rezende explica que o importante é saber olhar, com emoção e respeito, todas as coisas que fazem parte de nosso cotidiano. É neste universo, feito de coisas aparentemente sem importância, que a premiada escritora mineira vai buscar a inspiração para seus textos... E ela revela um “segredo” aos seus leitores: tudo o que nos rodeia tem algo a nos dizer. Stela Maris busca também na natureza as imagens com as quais representa, de forma sutil e única, o ofício do escritor.

Uma bela forma de ensinar os jovens escritores a se debruçarem sobre as páginas em branco dos cadernos, ou sobre a tela do computador, em busca de novas histórias, participando desta eterna e mágica aventura da criação...

Catálogo da Editora Casa da Palavra, Rio de Janeiro, www.casadapalavra.com.br

Magda Frediani é especialista em Literatura Infantil e Juvenil, ensaísta e escritora

O último dia de brincar - Anna Cristina Rodrigues

Gente é bicho muito difícil da gente entender, cruz-credo. Mas difícil não quer dizer impossível. Talvez por isso passamos a vida inteira tentando entender o fascínio que algumas pessoas sentem por certas coisas, por exemplo, por um saco cheio de terra escondido dentro do guarda-roupa. Mas há outros comportamentos ainda mais difíceis de serem compreendidos: o preconceito, que pode se manifestar contra classe social, raça, religião, nacionalidade e até tamanho do pé ou o fato de ter a mãe largada do marido.

Entender esses comportamentos não é fácil, mas pensar e falar sobre eles é urgente e todos nós, de alguma maneira, tentamos. Alguns, com muita dificuldade; outros, com maestria. E nessa última categoria está Stela Maris Rezende, autora do livro O último dia de brincar. E a arte é tanta... e a maestria é tanta, que o livro não é só uma leitura imperdível como também é obra premiada (Prêmio João-de-Barro-1986). Nas páginas desse livro, o leitor vai conhecer a Dorinha e seu fascínio por um saco cheinho de terra; Sá Natércia e Dona Carmosina, que desistem de compreender a paixão de Dorinha e a acompanham nessa paixão; Mariinha, que não entende o preconceito e se irrita com ele; Polidora, um tifuque de tão pretinha, mas reproduzindo esse comportamento incompreensível.

É só? Não, tem muito mais! Tem a paixão literária de duas meninas: pela Clarice, aquela do coração selvagem, e pela Cecília, aquela da viagem.

Todo esse conteúdo assume no livro forma admirável: uma linguagem fluente, que surpreende, causa estranhamento e atrai. Tudo ao mesmo tempo. É uma linguagem mineira: montanhosa e férrea, assim descrita por Laura Sandroni: A linguagem resgata o falar regional cheio de graça em sua simplicidade, o que poderá ser observado em salas de aula ao recuperar vocábulos em desuso da expressão popular. Pode ser. E certamente é cheia de graça em sua simplicidade interiorana. Mas em desuso? Certamente não. Quase posso ouvir tais vocábulos brotando nas bocas mineiras ainda hoje.

Por tudo isso, O último dia de brincar foi premiado, considerado Altamente Recomendável para Jovens pela Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, incluído no primoroso acervo do Programa Nacional Biblioteca da Escola, do Ministério da Educação, e selecionado entre os melhores livros para jovens publicados na época.

É preciso dizer mais? Então aí vai: vamos dar aos nossos alunos, tão carentes de arte e poesia, a oportunidade de conhecer a Dorinha, a Célia, a Clara, a Mariinha e a Polidora e ainda suas paixões, alegrias e tristezas. Eles merecem isso!

Jornal de Brasília, quarta-feira, 16 de maio de 2001

Anna Cristina Rodrigues é professora, editora e especialista em Literatura Infanto-Juvenil

Da obra juvenil à obra para adultos - Vera Maria Tietzmann Silva

Uma voz diferente das demais na narrativa juvenil é a de Stela Maris Rezende, que situa seus contos e novelas no interior de Minas e vale-se do modo elíptico de falar e de ser do típico mineiro, criando textos que exigem um leitor atento e ganham um sabor especial se lidos em voz alta. São ficções menos acessíveis ao leitor com pouca experiência, mas que se apresentam como um desafio instigante a quem tem o hábito da leitura. Poderíamos arriscar dizer que a ficção de Stela é preparatória à leitura de Guimarães Rosa.

Revista Releitura, Belo Horizonte, abril de 2001, número 15

Vera Tietzmann é mestre em Literatura Brasileira, especialista em Literatura Infantil,  ensaísta e escritora

Uma bruxinha que encanta os jovens - Yara Malheiros

Até hoje ela consegue disfarçar, e bem, quando é preciso. Por isso mesmo, pouca gente sabe que Stela Maris Rezende, além de morena, pequenina, meio zombeteira e dona de uma jovialidade transparente em seus 42 anos, tem uma acentuada queda por bruxiches e feitiçarias.

Menina, gostava de manter todos presos ao seu encantamento.

As magias de Stela, porém, misturam pitadas de palavras com porções de idéias e muitas doses de imaginação. E acabam resultando em histórias deliciosas como as de O espelho da alma, lançado no ano passado, ou as de Sem medo de amar, publicado em 1990 e que vende 6 mil exemplares por mês. Tudo começou há tempos, lá em Dores do Indaiá, cidade do oeste de Minas Gerais onde ela nasceu. Garotinha ainda, seu passatempo predileto era reunir primos e amigos para ouvir histórias compridas e sempre inventadas na hora. “Eu me sentia a própria feiticeira, mantendo todos ali, de olhos curiosos, presos em mim, encantados e loucos pra saber o final. Aí, fazia suspense, provocava, pra manter a atenção por mais tempo”.

Quando está escrevendo, ela pensa na força rebelde dos jovens.

Embora seu livro de estréia, lançado em 1979, tenha se voltado para o público adulto, Stela não ficou satisfeita. Para ela, a mágica é mais prazerosa se feita para os jovens. “Como, porém, ninguém fica velho sem ter sido jovem, acho que escrevo mesmo para todos. Mas é na juventude, na sua porção sonhadora e rebelde, que penso quando estou criando um texto”, diz ela. Para buscar inspiração, Stela se refugia no sótão de sua casa, ou na biblioteca, muito bem arrumadinha, cheia de livros meticulosamente organizados. “O sótão é um lugar misterioso que tem tudo a ver comigo, me inspira”.

De Minas vêm também as expressões saborosas que Stela usa nos livros.

Volta e meia, a escritora retorna à cidade da infância para recuperar energias perdidas e o falar característico do povo da região, que transporta para suas histórias. São expressões típicas, como: “Careço de ir embora”, “Ara, tetéia”, ou “Eu havera de entender”. Muitas vezes, uma dessas expressões, ou simples palavras, desatam o nó da memória e “aos borbotões, de palavra em palavra, a história vai se arrumando quase por si mesma”.

Ela escreve para ser amada, atrair e encantar.

É assim, cercada de seus mistérios, de seus jovens queridos, e meio escondida lá no Planalto Central do país, que Stela Maris vai colecionando prêmios e emocionando um número cada vez maior de leitores, sua alegria maior. Afinal, diz ela, “como falava Mário de Andrade, a gente escreve pra ser amado, pra atrair e encantar. O que o escritor mais deseja é ter leitores, muitos e muitos leitores”.

Revista Nova Escola, ano VIII, número 64, São Paulo, março de 1993

Yara Malheiros é jornalista

A revisão da fala mineira - Marcos Bagno

Os poucos brasileiros que, cultivando o acintoso hábito de ler (num país onde milhões de pessoas são criminosamente mantidas no analfabetismo), se deixam guiar pelas listas de livros mais vendidos elaboradas por revistas e suplementos literários que só falam do que acontece em São Paulo, no Rio e em Nova Iorque, certamente não terão ouvido falar de Stela Maris Rezende. Afinal, ela não é professora de pós-graduação da USP, não conta com nenhuma campanha de marketing de grande editora, não escreve sobre baixo esoterismso e bruxaria de meia pataca, não é autora de biografia nem é afilhada de Rubem Fonseca. No entanto, Stela Maris Rezende, mineira radicada em Brasília, é, sem dúvida, uma das maiores escritoras do Brasil nestes tristes dias que correm

Recentemente, dois de seus livros, O último dia de brincar e Alegria Pura, foram incluídos numa relação de “destaque da década” na área infanto-juvenil. Mas o que será literatura infanto-juvenil? Será mesmo necessário rotular a literatura em gêneros? As viagens de Gulliver, de Jonathan Swift, foram escritas para adultos: trata-se de uma severa crítica do autor à politica britânica de sua época. Hoje, porém, o livro é vendido para crianças, tendo sido inúmeras vezes adaptado para o cinema e a televisão sob a forma de desenho animado. Já as aventuras de Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll, foram presumivelmente concebidas para a diversão das crianças, e hoje a obra é objeto de verdadeiro culto entre os conhecedores da literatura inglesa, pelo que tem de revolucionário do ponto de vista lingüístico, narrativo e até psicanalítico.

A obra de Stela Maris Rezende se situa exatamente nesta faixa de indeterminação dos gêneros, embora as editoras que publicam seus livros se limitem a rotulá-los, por razões comerciais de divulgação junto às escolas, de “infanto-juvenis”. Se é verdade que suas personagens são invariavelmente crianças e adolescentes, isso não é suficiente para aquela rotulação. Na verdade, a obra de Stela Maris Rezende pertence àquele gênero literário onde, por assim dizer, nada acontece a não ser literatura... Uma obra em que o mais importante é o labor poético, a transfiguração das palavras, o bordado sutil das imagens: “O sol era doce. A chuva é que viera mas muito de delicadeza de chuva lerda, era só um claro de querer os boizinhos tristes, os samburás de abacate, o carro-de-boi salpicadinho de orvalho”.  Não é por outra razão que Clarice Lispector preferiu chamar suas últimas obras simplesmente de “ficções”, que Guimarães Rosa batizou as novelas de Corpo de baile ora “romances”, ora “poemas”, ora “contos”, ora “estórias”, e Osman Lins deu aos contos de Nove, novena o rótulo generalizador de “narrativas”. É que nestas obras a linguagem perde o chão firme da prosa e se deixa carregar, atônita, pelos redemoinhos da poesia.

Um sempre mesmo cenário: Dores do Indaiá. Mas a Dores do Indaiá que os livros de Stela recriam provavelmente nada tem a ver com a cidade do interior de Minas Gerais onde ela nasceu,  assim como nunca haveremos de encontrar fora do romance o grande sertão de que nos fala Guimarães Rosa. Porque é difícil imaginar uma cidade mineira hoje sem automóvel, sem televisão, sem telefone, sem outras utilidades e futilidades do assim chamado progresso. Stela Maris, de fato, não nos descreve Dores do Indaiá; o que faz é colher da memória um tempo-espaço, indefinido, certamente passado, mas que dispensa datas precisas. Tempo de tradições vividas sem mistério, tempo de bordar, de cozinhar arroz-doce, de fazer chá de mil plantinhas diversas, de fazer promessa à santa padroeira, tempo de ter tempo de ter saudade. Numa época em que a ecologia virou bandeira de gregos e goianos e, muitas vezes, veículo de escapismo e alienação de outros problemas igualmente sérios, os livros de Stela Maris são doces manifestos em favor de uma vida ecológica, mas sem alardes panfletários: uma vida na simplicidade, no convívio com palavras antigas, na pacata consciência de um mistério maior que todo saber humano.

A língua de Stela Maris é uma reinvenção do falar do mineiro do interior. Reinvenção porque não se obriga a nenhuma tarefa de documentação, de transcrição fiel, não se obriga a ser retrato autêntico de nada. Reinvenção, esta sim, tarefa do poeta. Escreve sem nenhum preconceito gramatiqueiro, sem temor de patrulhamentos ortográficos e sintáticos, o que dá a seus diálogos um sabor de café com leite bem doce para ser tomado com rosquinhas de polvilho: - “Menina borrecida, quieta o facho, não está vendo que eu estou proseando aqui mais a comadre, ô Divino Pai Eterno, a gente não tem sossego nem pra destramelar a língua que essa menina já vem ô mãe, ô mãe, fala, menina, fala, você quer beber mais coalhada?”  Para mineiros exilados, uma oportunidade de recordação; para não mineiros, a descoberta de um português macio, mimoso, nem certo nem errado, diferente, mas sem intenções folclorizantes, sem regionalices premeditadas, apenas vozes gravadas na memória: “Orquisa fechou os olhos, vai e vai, Orquisa balangando na cadeira de vime: A Tonhita havera de desvelar um molde da Idalina ter querença de morar em Dores do Indaiá o resto da vicissitude dela”.

Stela parece colher as palavras como quem vasculha uma horta à cata das ervinhas exatas para cada chá: “Conheço alma de cada ramilhete de planta”, diz uma personagem sua. Stela também domina esta ciência de conhecer a alma de cada pedacinho de palavra, de cada nome sugestivo. Suas frases são gostosas como queijo-de-minas, como doce-de-leite. Coleciona nomes. Nomes de planta: sebastião-de-arruda, angelim-rasteira, rajadeira, araçá-do-brejo, murta-de-parida, frei-jorge, bordão-velho, colher-de-vaqueiro, grosso-aí, calcanhar-de-cutia, tingui-capeta. Nomes de pontos de bordado: ponto cheio, ponto de areia, ponto de meia, ponto-atrás, ponto de haste, festonê, canutilho, ponto de cadeia. Nomes das cidades mineiras: Heliodora de Funchal, Corguinho do Barro, Amparo da Serra, Claro dos Poções, Pedra do Anta, Santana do Garambéu, Morro do Pilar, Várzea da Palma, Entre Folhas, Amanhece, Morro da Garça, Retiro da Roça, Água Friinha, Baldim, Cercadim, Chonin, Matipó, Fitico, Dores do Turvo, Dores de Guanhães, Resplendor. Nomes de mulher, colhidos e inventados: Bigail, Varduína, Mundiquinha, Olivina, Belozina, Mariã, Anitó, Cefânia, Tonhita, Dulcisa, Vandira, Polidora, Gaudéria, Mariinha. A poesia se faz com palavras e só, parece nos ensinar, Stela Maris Rezende, ciente de que fora da poesia não há salvação.

Nos contos-poemas de Stela, uma aposta radical na mulher. Suas personagens flutuam sempre num mar de feminilidade. Seu universo, assim, é inevitavelmente líquido e cambiante, ora turvo, ora cristalino, ora açude tranqüilo e límpido, ora rio barrento de corredeira. O homem aparece quase sempre como o jovem rapaz, uma esperança de homem novo, uma promessa de transformação de figura pré-histórica do pai provedor, do chefe de clã, do macho insaciável. Volta e meia, Stela nos mostra um quadro de inocente poliandria: várias mocinhas que compartilham, sem complicações, o amor de um mesmo rapaz. Será porque anda grande a escassez de homens dignos de amor? E uma interessante estatística: uma alta porcentagem das meninas e moças da ficção de Stela são filhas de pais separados, vivendo com a mãe que finalmente decidiu abandonar um marido-pai indesejável. Este traço de contemporaneidade vem aproximar do nosso presente o cenário da cidadezinha interiorana aparentemente parada no tempo.(...)

O primeiro conto de O último dia de brincar, “Feitiço”, é a melhor porta de entrada para a ficção de Stela Maris Rezende: quem não conseguir se enternecer às lágrimas com a história de Dorinha e seu saco de terra pode abandonar de vez qualquer esperança de algum dia penetrar os mistérios profundos da poesia. Depois deste primeiro contato, é indispensável que se leia O sonho selvagem, (editora Moderna, São Paulo), um livro curto e belo, de uma densidade lingüística, de uma investigação mística e sentimental comparáveis à de uma estória de Guimarães Rosa. Neste conto podemos encontrar um dos artifícios mais característicos da prosa poética de Stela Maris: a narrativa em espiral. A autora presenteia o leitor com alguns temas-novelos que ela vai progressivamente retomando e desenrolando, num movimento espiralado, que aos poucos vai desvendando a intimidade da personagem. Um movimento que lembra o de um redemoinho, um redemunho  de vento, como o que envolve o sonho selvagem, amor camuflado de crueldade, da menina Ângela: “Tem a ventania. O vento brabo da montanha. Um redemunho que não acaba”.

CORREIO BRAZILIENSE, Brasília, domingo, 26 de maio de 1991

Marcos Bagno é doutor em Lingüística, tradutor, poeta e ficcionista premiado

Depende dos Sonhos - Carmem Moretzsohn

Luzia está cozinhando. Tão compenetrada no doce-de-ovos que não pode errar. Senão fica com gosto de cruz-credo e isso ela não quer. Do fogão, avista o pé de jabuticaba, carregadinho de frutinhas maduras. Fica pensando em Talico: será que vendo o pé de jabuticaba madura, ele vai notar que ela também já está prontinha para namorar? Também ela já madurinha para o amor? E passa a viajar – passado, presente e futuro vindo na cabeça – sonhando na beira do fogão. Assim começa a história de Depende dos Sonhos, o mais novo livro da escritora Stela Maris Rezende, que será lançado hoje, a partir das 17h, no estande da Livrim, na Feira do Livro Infantil do Parkshopping.

Este é o décimo sexto livro de uma autora mineira premiadíssima, que escolheu Brasília para morar. E falar para um público atualmente esquecido por todos os meios de comunicação: os infanto-juvenis. A décima sexta obra de uma produção que é mineira por excelência, e literatura no sentido mais puro da palavra, por opção. Nada precisa acontecer de fato na ação contada por Stela: sua brincadeira com as palavras vale tudo.

Stela Maris tem por hábito reescrever pelo menos 10 vezes cada texto. Em cada um, seja conto, novela, surgem palavras arcaicas ou típicas do interior de Minas, assim como também seus personagens. Eles assuntam e dão fé, pelejam, atrás de uma coisa perrengue, que havera de ser um embondo. Parece coisa estúrdia. Suas palavras, sonoras e macias, são quase como a reinvenção do falar mineiro do interior. Não com caráter documental ou folclorizante, apenas pelo prazer de brincar com a linguagem, elas surgem como vindas do passado, de uma época em que ecologia ainda nem existia e podia parecer brincadeiraa dizer a um caipira que era preciso ter cuidado com as plantas... Pura redundância. Na obra de Stela Maris, as letras se juntam para formar palavras que criam um estranhamento gostoso, uma sonoridade musical e provocações sutis. Sinal de emoção e busca.

Os livros da autora são comumente batizados como literatura infanto-juvenil, mas, para serem mais exatos, os críticos encontraram uma outra combinação, mais precisa: prosa poética. A escritora combina frases como se cantasse uma cantiga de roda, rimando ou não, mas sempre vasculhando a alma humana. Quando não são histórias de amor tendo adolescentes como protagonistas, são textos que falam da busca da identidade e do medo da solidão. Ela diz: “Nas minhas histórias, não acontecem muitas coisas. Não tem muita ação. É mais o fluxo da consciência. São histórias que buscam mais a interiorização do que a ação externa. Em todos há sensualidade, que muito tem a ver com a época da adolescência. A sensualidade, se for tratada com arte, tem que ser abordada. Num texto literário, qualquer assunto pode ser tratado”.

Na obra de Stela, há sempre escolha por uma protagonista-adolescente em plena descoberta de seus sonhos de mulher-menina. Neste Depende dos Sonhos também é assim. Luzia é uma menina com idade entre 11 e 12 anos (a autora faz questão de não precisar a idade) que é apaixonada por um vizinho da mesma faixa etária, Talico. Só que ele, como todo menino, só quer saber de brincar com os outros e nem repara nela. Ou melhor, olha Luzia como olha para uma jabuticabeira. Ela sabe disso e sofre com a rejeição de Talico. Mas, enquanto vai fazendo o doce-de-ovos, repassa a vida, lembrando acontecimentos do passado, pensando sobre o presente e até projetando o futuro. No final, ela se mostra pronta para tudo. Até para mais uma rejeição ou até para esquecê-lo de vez. É a maturidade vinda com um passeio profundo pela alma. (...)

Jornal de Brasília, 12 de outubro de 1991
Carmem Moretzsohn é jornalista e atriz

A oralidade filigranada - Beatriz Alcântara

Conhecemo-nos no curso de Mestrado em Literatura na Universidade de Brasília. Primeiro observei seu modo de ser mineiro, ou seja, um olhar entre tímido e amistoso que fazia-se acompanhar de silêncio, muito silêncio. Num trabalho em grupo descobri o texto de Stela. Um encantamento. Mais tarde convidei-a para participar do livro O outro lado do olhar, um questionamento sobre o discurso feminino, e constatei, com muita alegria de ser sua amiga, a humildade de que já publicara tanto e com tal qualidade que as editoras nacionais disputavam cada novo texto seu. Surgiu, logo depois, a consagração de Stela Maris Rezende: o livro Alegria Pura recebeu o primeiro lugar da Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, categoria infanto-juvenil, 1988. A autora gosta de dizer-se uma contadora de histórias e isto é por certo mais uma “mineirice” de ser, pois sua narrativa, pródiga em sensibilidade, tem a arte da oralidade filigranada. À sonoridade lúdica das palavras Stela associa um fio narrativo que não tem pressa, como a vida entre as serras de Minas, e por esta mesma razão desconhece o hermetismo. Ainda que vagarosa a narração o domínio da autora não permite que o conteúdo dramático de seus contos e novelas chegue a ameaçar perder-se no relato, tal a desenvoltura com que imprime precisão ao enredo. Stela Maris Rezende possui a difícil arte do ser simples.

Jornal O POVO, Fortaleza, domingo, 26 de agosto de 1990

Beatriz Alcântara é escritora e ensaísta

Quando o amor é um sonho selvagem - Lino de Albergaria

O Sonho Selvagem, de Stela Maris Rezende, ilustrações de Rogério Borges, editora Moderna, coleção Veredas, tem um tom intimista, ambígüo, feminino. A autora dá à personagem-narradora o nome Ângela. E a história transcorre no campo, entre árvores, passarinhos soltos, muito vento, uma montanha. Ângela se revela uma moça calada, quase sozinha, às voltas com seus sentimentos. Com certeza não sabe o significado do seu nome e vê que nunca pode usar as asas que dona Marinês fabrica para as coroações de maio. Por causa do que sente, do que não fala, porque se maltrata. E vive seu amor no limite do ódio.

Ângela e Luís, feminino e masculino, sozinhos, despossuídos, maltratados pela vida, também se maltratam, quando querem o amor, mas desconhecem sua linguagem. Que, apesar de tudo é amor, um sonho selvagem, quando se está perto da terra, à mercê das ervas e do vento. Daí esse conflito barroco, entre anjo e demônio, que Stela Maris Rezende traduziu tão bem. Fez um texto bonito, usando palavras, termos da terra, sem carregar no regionalismo. Criou personagens intensamente identificados a essa terra, Minas Gerais rural, com seus restos de arcaísmos e mistério. Num livro que o adolescente da cidade saberá entender e gostar. Pois o texto, literário mas sem hermetismo, mostra ao leitor um outro mundo, tão próximo e quase desconhecido, cheio de força e beirando precipícios. É que os personagens em sua adolescência têm basicamente as mesmas preocupações que os leitores que a autora procura entender: seus sentimentos, seu corpo e sua alma, sua carência do outro.

Os desenhos de Rogério borges, em preto apenas, acentuando os volumes e as sombras, em detrimento da linha e do contorno, são dramáticos e escorregadios, denunciando segredos. O ilustrador explorou a dicotomia anjo-demônio e por aí construiu sua linguagem, numa leitura plástica que mantém a atmosfera do texto.

Jornal Hoje Em Dia, Belo Horizonte, domingo, 25 de junho de 1989

Lino de Albergaria é escritor premiado e crítico de Literatura

Alegria Pura - Laura Sandroni

Stela Maris Rezende é, sem dúvida, a grande revelação de autor para o público jovem dos anos oitenta. Ela conquistou um lugar especial na literatura brasileira ao vencer o Concurso João-de-Barro de 1986 com O último dia de brincar e agora confirma o seu talento ao receber o Prêmio Nestlé pelo excelente texto Alegria Pura.

Neste bordado de pequenas intrigas, grandes expectativas e doces vinganças, Stela Maris revela todos os encantos do seu estilo, ao mesmo tempo lúcido e cerebral. A linguagem é muito trabalhada e resgata, limpidamente, o dizer regional, pleno de graça em sua simplicidade e precisão. Em todos os detalhes está presente o Brasil interiorano, antigo, parado no tempo, contemporâneo do país urbano e frenético, mas ainda não contaminado por ele.

As cinco moças que Maurícia visita têm nome delicioso, mas raro para os leitores citadinos: Liló, Mazé, Isorina, Dileusa, Célida. A descrição das casas e dos ambientes faz-nos voltar a um tempo, aquele de nossos avós. São pés de antúrio e cheiro de pamonha, vasinhos de avenca e compotas caseiras, pés de couve ao lado de tanques de lavar roupa, tufos de cravos e doces de laranja azeda.

As metáforas com que Stela Maris descreve as mudanças de comportamento nascem dessa profunda ligação com a terra: “de azeda pra melado”, “o que era suçuarana agora é coelhinha”, “pano de chão pode virar metro e meio de seda?”. A própria trama remete aos vilarejos de onde os rapazes saem logo que a cidade lhes permite para tentar a vida na cidade grande. Cinco moças disputam o mesmo namorado, “difícil um pretendente assim de futuro”, e é com esse trunfo que conta sua irmã Maurícia para uma vingança engraçada e ingênua que aos poucos transforma “a alegria malsã em alegria pura”.

Um texto curto, simples e engraçado que encerra uma visão profunda do ser humano. O mundo interior das meninas-moças aprisionadas em suas vidas sem futuro.

Com esses dados e a marca de uma natureza onipresente, Stela Maris Rezende compõe um vigoroso painel tecido por delicados fios.

In: REZENDE, Stela Maris. Alegria Pura. São Paulo, Scipione, 1988

Laura Sandroni é ensaísta e crítica de Literatura

Alegria Pura ganhou o primeiro lugar da Bienal Nestlé de 1988, categoria infanto-juvenil, e teve como comissão julgadora grandes nomes da Literatura e da Crítica no Brasil: Ruth Rocha, Nelly Novaes Coelho, Laura Sandroni, Vivina de Assis Viana e Maria Clara Machado

Alegria Pura - Tatiana Belinky

Alegria Pura, leve e simples. Mas profundo.

Mesclando humor e emoção, o livro atrai crianças e adultos.

Meses atrás, comentei aqui um livro muito bonito, ganhador do Prêmio João-de-Barro (de Belo Horizonte), de Literatura Infanto-Juvenil de 1986, mas que só no começo deste ano chegou às minhas mãos: O último dia de brincar, de Stela Maris Rezende. “Prestem atenção a este nome!”, escrevi naquela ocasião, entusiasmada, sentindo o grande talento da jovem professora mineira. E não deu outra: Stela Maris Rezende levantou, entre muitos e bons concorrentes, o prestigioso e importante prêmio da categoria infanto-juvenil da Quarta Bienal Nestlé de Literatura Brasileira, promovida de 4 a 8 deste mês. (...)

Alegria Pura é o título do livro premiado de Stela Maris Rezende (publicado pela Scipione, grande especialista no gênero, que editou todos os livros premiados desta Bienal Nestlé). É um livro de pouco mais de 30 páginas, com algumas singelas ilustrações em preto-e-branco, de Laíse A. Rodrigues, tipos graúdos, margens largas, grandes espaços entre os “capítulos”- se é que este nome se aplica aos breves parágrafos e rápidos diálogos, que chegam a ser quatro por página. Portanto, um texto curto, que uma criança (ou um adolescente, ou um jovenzinho, ou um adulto) lê facilmente em menos de uma hora.

Só que não fica nisso, porque, chegando à última página, volta-se logo para a primeira, a fim de saborear com vagar e deleite tanto a graciosa história quanto a deliciosa linguagem – lindamente elaborada na sua aparente simplicidade – sem esquecer o “pano de fundo” de uma vida interiorana, “antiga”, apesar de encravada nesta época agitada e cosmopolita, que não chegou a atingir as casadoiras mocinhas Liló, Mazé, Isorina, Dileusa e Célida. A primeira linha do livro é – “Alegria malsã?” – e a última é outra pergunta: “Alegria malsã pode virar alegria pura?” Stela Maris Rezende consegue, em uma admirável síntese, transmitir ao leitor a impressão de todo um mundo – tão próximo e tão distante de nós, das grandes cidades – um mundo “parado no tempo, aquele dos nossos avós. São pés de antúrio e cheiro de pamonha, vasinhos de avenca e compotas caseiras, pés de couve ao lado de tanques de lavar roupa, tufos de cravos e doces de laranja azeda”,  - como diz, entre outras coisas bonitas, Laura Sandroni, que sabe das coisas.

Stela Maris Rezende é uma escritora importante, das melhores que temos, nesta difícil área infanto-juvenil. Domina com igual desenvoltura e mestria a temática e o estilo: o que diz e como o diz. E sabe mesclar em boa medida, emoção, humor, observação – ao lado de leveza, simplicidade e profundidade.

Alegria Pura é um livro que é... beleza pura.

Jornal da Tarde, São Paulo, segunda-feira, 08 de agosto de 1988

Tatiana Belinky é escritora e crítica de Literatura

Literatura temperada com emoção - Tatiana Belinky

Stela Maris Rezende (atenção para este nome!) acaba de ganhar o Prêmio Nestlé de Literatura Infanto-Juvenil de 1988, e estou com muita vontade de ler esse trabalho, isto porque “descobri” esta autora, ao receber, recentemente, da editora Miguilim, o seu livro O último dia de brincar, Prêmio João-de-Barro, Júri Adulto, de 1986, publicado em 1987. Pelo visto, trata-se de uma nova colecionadora de prêmios, “contista mineira” das melhores, que nasceu em Dores do Indaiá, “candanga” da primeira hora, que mora em Taguatinga, cidade-satélite de Brasília.(...)

O último dia de brincar agarra o leitor desde as primeiras linhas, a começar pela “voz” muito especial, linguagem própria, certo “sotaque”, certa música – coisas que, em suma, respondem pelo nome de “estilo” - coisa pouco comum mesmo entre os bons “contadores de histórias”. E isto ela certamente é: contadora de histórias. Que são quatro, nesse pequeno livro, de apresentação meio inusitada, com o texto impresso em duas colunas em “negrito”, com margens largas e bons espaços brancos, o que facilita a leitura, além de ser agradável aos olhos. Como o são também o projeto gráfico e as ilustrações de Vlad Eugen Poenaru, cujas criativas “gravuras” negras e vazadas, em alto-contraste sobre páginas inteiras em cartolina cinza-claro, fazem estimulante contraponto com as quatro, tão diferentes, histórias.

O último dia de brincar, do título, é o dia em que Mariinha é proibida, pela avó, de brincar com a amiguinha Polidora, por ser esta “filha de mãe largada”. E Mariinha lembra, no seu gostoso “mineirês”, que a mãe dela, Mariinha, também não queria que ela brincasse com Polidora: “Ô Mariinha, eu acho uma coisa estúrdia você andar com a Polidora, porque, coitadinha, ela é tão pretinha...” As duas garotinhas resolvem não obedecer: “Mariinha pensava assim: gente é bicho muito difícil da gente entender, cruz-credo”. A mensagem antipreconceituosa “passa” natural, sem dedo em riste, embutida na história, e é assim que deve ser.

Outra história, “Feitiço”, é sobre uma garotinha e um punhadinho de terra mágica, mas mágica mesmo, só vendo, ou melhor, só lendo. E a outra, “Parceria”, é sobre duas garotas amigas, Célia e Clara, que gostam de ler e de escrever, e que querem formar uma parceria mudando seus nomes para Cecília e Clarice, “paradigmas” que o leitor descobre, porque o texto não diz (mas dá a entender), serem nada menos que a Meireles e a Lispector. Na página 9, toda vazia, só lá em cima, a frase: “Na viagem do coração o sonho é sempre selvagem?” Pergunta que me remeteu direto para o outro livro de Stela Maris Rezende, do qual queria falar, que é: O sonho selvagem ( da ótima coleção Veredas, da editora Moderna).

Livro pequeno, texto de umas 15 páginas, na verdade um conto – mas tão maior por dentro que por fora! Tão rico de sensibilidade, de emoção, de poesia, ao mesmo tempo suave e forte, e dramático, na sua linguagem toda especial, que chega ao ponto do leitor por vezes quase perder o fio da história, envolvido que fica mais pelo “como” do que pelo “que” ela conta... E aí acontece uma coisa boa: a gente tem vontade de reler uma página ou outra, e participar do desenvolvimento, crescimento e revelação do “coração selvagem” no nascer do amor entre dois jovens que no começo se enfrentam, se provocam, se “odeiam” e... mas para que falar do enredo? É preciso ler o livro, para curtir o saboroso “mineirês” da autora, o ritmo da sua narração, o clima, os diálogos, os nomes, e até as palavras – inzonando, fripinhas, lapeavam, embondo, pantasma – essas coisas...

Os dois livros são muito, muito bons – e nem sei por que são classificados como infanto-juvenis ( o que não deixam de ser, mas “também”) – porque são literatura da boa, para qualquer idade.

Jornal da Tarde, São Paulo, 20 de fevereiro de 1988

Tatiana Belinky é escritora e crítica de Literatura

O último dia de brincar - Edmir Perrotti

Pequenas histórias que são pura beleza

Reunindo pequenas histórias que envolvem o cotidiano de meninas em situações diversas, Stela Maris Rezende traz belezas novas para a literatura infanto-juvenil. De uma oralidade requintada, carregada de nuanças e meios-tons, sua narrativa dispensa todo tipo de obviedade, atendo-se ao estritamente necessário para a criação do “clima”.

Tratando de temas como preconceito social contra filhos de pais separados ou incompreensão entre mães e filhas, jamais a autora cede ao fácil ou ao vulgar. Como um ourives de emoções, tudo nela é fino, delicado e, sobretudo, bem escrito, deliciosamente bem escrito.

Revista Nova Escola, São Paulo, ano III, número 21, maio de 1988

Edmir Perrotti é crítico de Literatura e escritor

O último dia de brincar - Laura Sandroni

O ultimo dia de brincar foi a obra que, ao receber o Prêmio João-de-Barro, da Prefeitura de Belo Horizonte em 1986, revelou Stela Maris Rezende, autora que pela originalidade de seu estilo, tornou-se importante na literatura para crianças e jovens produzida no Brasil, para a qual continua a contribuir com assiduidade e reconhecida qualidade.

O livro constitui-se de pequenos contos que retratam o cotidiano infantil nas pequenas cidades do interior do país. “Feitiço” narra o encantamento de Dorinha pela terra, a ponto de guardar em seu armário uma caixa contendo um saco cheio dela. “Parceria” fala do desejo de ser escritora expresso em pequenos bilhetes que duas colegas de classe trocam com freqüência. “Uma idéia de amar” também refere-se, de forma metafórica, ao ato de escrever. As idéias de ver, querer, ter, conhecer, esquecer, escrever e ler estão interligadas e expressas na palavra escrita e contêm a idéia de amar.

O último dia de brincar tem tratamento mais realista ao descrever a brincadeira de comidinha entre quatro amigas. No meio da conversa surgem preconceitos, ouvidos dos adultos, que quase acabam com a amizade entre elas, mas logo são superados.

Nesse bordado de pequenas intrigas, Stela Maris Rezende compõe um vigoroso painel tecido por delicados fios. A natureza é onipresente, assim como em todos os detalhes está o interior de Minas Gerais, terra de nascimento da autora.

A linguagem, principal característica de seu estilo, é muito trabalhada e resgata o falar regional cheio de graça em sua simplicidade, o que poderá ser observado em salas de aula ao recuperar vocábulos em desuso e demonstrar a riqueza da expressão popular.

Os desenhos a nanquim de Vlad Eugen Poenaru, valorizados pelo papel cartonado no qual são impressos, dão um toque de modernidade à edição cuidada.

Site da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Rio de Janeiro

Laura Sandroni é crítica de Literatura e ensaísta

O último dia de brincar - Nilma Lacerda

Este segundo livro de Stela Maris Rezende surge maduro. Em sua filiação a uma linhagem regionalista à feição de Guimarães Rosa, a autora costuma levar seus personagens a se posicionarem na vida de um ângulo pouco comum, em que há espaço para uma subjetividade rica e corajosamente defendida.

Permeada pela poesia que flui do cotidiano, a linguagem da autora evidencia a vida como dádiva, abre o espetáculo do mundo à contemplação e fruição do indivíduo. Nomes de pássaros, plantas, frutas, doces, tarefas diárias e brinquedos vão sendo enunciados numa constante recriação de vida, propiciando o enlace profícuo entre estar e agir no mundo para bem construir o ser no mundo, como em Depende dos Sonhos (1991).

Neste volume de pequenos contos, as personagens principais, todas femininas, são decididas, preservam e impõem sua verdade. Em “Feitiço”, Dorinha leva a mãe e a rezadeira a se renderem ao valor da terra que ela guarda com cuidado dentro do armário; em “Parceria”, duas amigas decidem antecipar seus destinos de escritoras, vivendo como aquelas a quem tanto admiram. Deixam de ser Clara e Célia para serem Cecília e Clarice. No conto que dá título ao livro, Mariinha intima a amiga Polidora a decidir se acata ou não a proibição feita pela avó de brincar com ela, filha de uma mulher largada do marido. Mariinha já havia se posicionado anteriormente com essa segurança, ao dizer à mãe que não ia deixar de brincar com a Polidora porque era negra. Pequena obra-prima, esse conto tem nele concentrada a mestria narrativa do volume, enquanto “Uma idéia de amar” enleva o leitor, densa como a voz dos grandes mestres e simples como a convicção dos clássicos, numa lição de metalinguagem literária.

Ambientando as narrativas num espaço provinciano, Stela Maris discute as miudezas da vida, expondo preconceitos e coragens, num texto que suscita no leitor emoção e visão crítica.

Membro de uma linguagem literária habitada pelos grandes regionalistas e poetas como Manuel de Barros e Drummond, cuja voz e reminiscências encontramos nesta obra singular, Stela Maris tem um lugar importante na nossa literatura, e um público cativo entre as crianças e os jovens. Este volume, de ilustração sóbria e de bom gosto acompanhando pictoricamente o texto verbal em seu projeto estético, é uma riqueza para o leitor com habilidade de leitura, permitindo a ele, além dos contos primorosos, o convívio com uma linguagem que sendo característica das “Gerais”, é a expressão de uma alma brasileira que se expõe inteira para o resto do país, na riqueza de suas variantes e experiências.

Site da Fundação Nacional do Livro Infantil e Juvenil, Rio de Janeiro

Nilma Lacerda é doutora em Teoria Literária e escritora premiada

Dentro das Lamparinas - Luiz Vilela

Recebi o Dentro das lamparinas. De cara eu vi que estava diante de uma escritora – não uma pretendente a escritora ou escrevinhadora de livros, mas uma escritora de verdade. Além de escrever uma prosa de ótima qualidade, Stela Maris tem um talento indiscutível para a ficção. E como se não bastasse tudo isso, Stela Maris é também pintora. Gostei de suas ilustrações; notei nelas o mesmo cuidado, a mesma firmeza e a mesma emoção que notei no seu texto. Não resta dúvida, “a mineira que vive no planalto central” é uma pessoa excepcional – e descobrir alguém assim hoje, num tempo tão medíocre como o nosso é no mínimo reconfortante”.

In: Suplemento Cultural do Jornal de Minas, 16 de novembro de 1980

Luiz Vilela é escritor premiado, um dos maiores ficcionistas da Literatura Brasileira

Dentro das Lamparinas - Miguel Jorge

Curioso notar o aparecimento de nomes na literatura feita no Brasil. E importante é falar da consciência desses novos escritores, que completam um círculo evolutivo de um trabalho de pesquisa, técnica, observação, estudo.

Stela Maris Rezende é um desses nomes, aparecendo com “Dentro das lamparinas”, (editora Horizonte, Brasília), num momento auspicioso de produção literária, caminhando firme pelo tão usado, mas não desgastado caminho do conto, com olhos bem abertos para os problemas sociais de Brasília e periferia, ou do Brasil, sem correr o risco de ficar ou parar no regional, imprimindo, inteligentemente, o cunho universal e universalizante em seus textos literários.

Os personagens criados por Stela Maris são retirados do comum cotidiano, com o humor do próprio brasileiro frente às suas desgraças. São homens e mulheres facilmente identificáveis pela ruas de Taguatinga ou Brasília. São tipos humanos daqui e dali, que nada desejam além do mínimo necessário para sobreviverem com dignidade: “À frente do cacetete e do revólver Pedro Pinóia vira uma esquina e o carrossel começa a parar, de mansinho, porque acabou uma roda. Outras crianças com bilhetes coloridos nas mãos estão pulando, felizes, aguardando sua vez de brincar”. (Aguardando Sua Vez de Brincar, páginas 33 e 34).

O leitor vai deparar-se com um discurso fluente, correndo muito à vontade, vindo do interior da escritora, com imagens nítidas, diálogos bem estruturados. Nessa mesma ordem de idéias a contista opta pelo conto breve, a narrativa curtíssima, mas densa, construída com os tecidos achados no dia-a-dia. Vejam o exemplo de O Aposentado, páginas 119 a 121:

“Atravesso a avenida, um pouco nervoso, os carros não param, não há sinaleiro nessa maldita avenida, anteontem aconteceu um desastre bárbaro bem perto de onde estou andando agora, com os meus sapatos de mocassim. Já estou próximo ao amontoado de pessoas que se empurram, todos querendo ver alguma coisa, deve ser uma coisa estupenda, uma briga de malandros, uma tragédia, sei lá”.

A linguagem usada por Stela Maris Rezende é simples, direta, às vezes comovente, muitas vezes transparente de poesia. Outras vezes a contista deixa-se perder pelo excesso de realismo, colocando o falar “roceiro” na boca do seu personagem tal qual se ouve por aí, nas regiões carentes de cultura e de outros benefícios materiais. Mas, na maioria das vezes, Stela Maris nos surpreende com a angústia de seu personagem, e então, sua narrativa passa a existir com o clima do monólogo interior, das reflexões da vida e sobre a vida, o relacionamento apressado das grandes cidades, a violência, a falta de solidariedade humana, a disputa pelo sobreviver, marcando também, em outros contos, a cadência descompassada, num ritmo lento, personalizado pelas pessoas que vivem nas cidades-satélites, ou em grupos de casas brotados como cogumelos ao redor das rodovias. Não se pode deixar de mencionar o conto intitulado Pelos Becos Afora, construído inteiramente com diálogos entre Piedade e Antônio. A escritora imprime força, enredo, movimento, coisa difícil para quem está lançando o primeiro livro. Felizmente amadurecido.

Jornal O POPULAR. Goiânia, domingo, 19 de maio de 1980

Miguel Jorge é escritor

Dentro das Lamparinas - Terezinha Alvarenga

Ainda dizem que Brasília é uma cidade sem alma. Imaginem se fosse, né, Stela? Você que é daí, que o diga...

A Stela, que está dentro das lamparinas, manda tanta brasa, isto é, calor humano, em seu livro de conto-crônicas, que dá para esquentar qualquer frio que anda por aqui. A moça de Brasília deu mesmo uma guinada de gente com jeito de mineira, quando sobe a Serra do Curral Del Rei, e cata a alma das pessoas no horizonte:

 “A mulher continua rindo, os olhos miúdos são engolidos pela bochechas murchas. Ele tira o resto de gordura das mãos com uma ponta de camisa. Ergue os olhos e vira o rosto. Vê ao longe, embaçada e triste, a Praça dos Três Poderes”.

Em quase todo o livro a Stela está solta, sem medo. Já cortou o cordão umbilical do autor do diz-que-diz. Sentimos uma mineira de cá das bandas do Nordeste. Com raízes e tudo. Veja isto aqui: “Nos bancos enfileirados os corpos sentados com as pernas cruzadas, com as pernas encolhidas. Os rostos que não dizem coisa alguma. Os olhos de todos. Com um brilho sombrio, uma luz sem direção. Nas bocas um riso tosco que mais parece uma careta repetitiva e angustiante.”

Bom, há contos que mais são crônicas e Stela fica com medo de dizer tudo e prende a língua, coisinha pequena. Dentro das lamaparinas tem qualidade em nível definitivo. E Stela não agrediu, não apelou, estreou com classe e fôlego dos que nascem já para transmitirem. Sentimento e sensibilidade giram em cores vivas e cinematográficas. Ela contou, narrou, dialogou e bem, voou alto quase sem rasantes. Para uma estreante, seu livro é muito bom mesmo. Não fica nesta, a bondade da Stela, também ilustrou todos os contos, alguns são realmente próprios de uma pintora, que além de talentosa, é firme.

Stela soube achar um título para cada conto. Assim de estalo e com febre de curiosidade, está curiosa, hem, Stela? fiquei impressionada com a capacidade de encontrar títulos tão fortes e chamativos. Li o livro pelos títulos: “Mato da Lenha”, muito bom conto, e com muita lenha no mato da Stela:

“- Eh, menina, tu também quer se banhar?
- Posso?
- Pula depressa que seu tio já vem”.

E andando pelas lamparinas da Stela, esbarramos com um e outro, mais outro título chamativo: “Pelo Becos Afora”... Mas no beco da Stela tem gente espiando... Seu beco, Stela, ficou muito bem dialogado. Não é novidade, mas é qualidade fazer um conto dialogado. Todinho.

“- Um beijo, Piedade...
- Que beijo qual nada! Me larga, Antônio! Me deixa passar.”

E em Tachos e Gamelas há melados e outros babados na fervura da Stela. De repente a língua da autora solta em poema, Filhos da Chuva, gostoso e molhado:

“Chuva sonhada:
Arrasta pedras e latas
De esperança
Pelas ruas onde cantam
Os filhos desse povo
- pode ser amanhã.”

Jornal Estado de Minas, outubro de 1980

Terezinha Alvarenga é escritora premiada e editora

Dentro das Lamparinas - Cyro dos Anjos

Cara Stela Maris,
Gostei muito dos seus contos. Você nos dá uma série de flagrantes – admiráveis alguns, sempre interessantes os demais -  da vida das criaturas pequenas, oprimidas, de horizontes fechados. Um livro que comove pela bela forma literária e pela humanidade dos tipos que traz à convivência do leitor. Livro triste. Mas pode haver livro alegre, quando o autor tem, como você, a consciência lúcida e desperta?

Com um abraço, mando-lhe os meus cumprimentos pela estréia.

In: Dentro das lamparinas. Brasília, Horizonte, 1979

Cyro dos Anjos foi membro da Academia Brasileira de Letras e é um dos clássicos da Literatura Brasileira, autor de “O amanuense Belmiro” e “Menina do sobrado”, entre outros. Foi professor de Stela Maris, na disciplina Oficina Literária, Universidade de Brasília.