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Resenha sobre "A Mocinha do Mercado Central" (2)

Um romance envolvente que conta a história de Maria e suas múltiplas personalidades, criadas na sua busca pela própria identidade e pela tentativa de compreender melhor as circunstâncias da vida. Cada nome inventado por ela carrega um significado, ensinado por Valentina Vitória, a vizinha e amiga que a inspirou nessa aventura. Diferentemente de Pessoa, cujos heterônimos têm nome e sobrenome, traços físicos e de personalidade independentes, as facetas de Maria, conforme vão sendo vivenciadas, são amalgamadas entre si e incorporadas ao seu próprio ser, ou será que apenas descobertas? Uma viagem no espaço, no tempo, nas sensações, um verdadeiro passeio pela alma humana e pelo mundo da imaginação, mais um argumento para acreditar na força da literatura; é o que o leitor encontrará nessa obra. A mocinha do Mercado Central é tudo isso "junto e misturado", mexendo e remexendo na memória do leitor, fazendo-o flutuar da realidade para a magia do mundo dos sonhos. E se, por um descuido, ou seria mergulho, ele se desperceber de onde começa uma e onde termina a outra, terá compreendido que "um sonho também é uma boa prática". "E a vida terá sido simplesmente mágica." É um livro para se ler de um fôlego só, cuja narrativa inteligente entrelaça sonho e realidade, passado, presente e futuro, de forma contagiante. Se algum dia eu me encontrar, não com o Selton Mello, mas com Stella Maris Rezende, "vou dizer (a ela) que me apaixonei por ele (o livro), e depois vou me afastar, toda louçã, e a vida terá sido esplêndida".

Heliete Millack | 2011

In: Barcadoslivros.org

 
Meu nome não é mais o mesmo. Eu não sou mais o mesmo. Nada é o mesmo que era há pouco. A Maria foi chegando devagarinho, assim como quem não quer nada, bem mineirinha mesmo, e arrebatou meu coração. Essa Mocinha do Mercado Central me deu uma alegria imensa, uma vontade de dormir e inventar um sonho improvável, daqueles que a gente sabe que pode mudar o rumo. De vez em quando eu olhava pra ela e achava ela meio parecida com o Dom Quixote. E eu que peguei o livro com tantas coisas garantidas, estou agora aqui, com uma espécie de nó na garganta, mas um nó bom, gostoso de sentir, um nó parecido com um pedaço de maçã engolido sem a devida mastigação. Porque sendo mineiro fica mais fácil entender essa mocinha, sabe. Imagina ter passado a vida inteira ouvindo algumas das frases que estão ali, nas páginas, tornadas agora texto literário. Imagina reconhecer os lugares – ah, é tão bom pra um mineiro essas coisas familiares – e as pessoas, a verossimilhança das situações. Eu sou assim. Ou fiquei assim, não sei mais. É meio mágico mesmo. Este livro é daqueles que a gente lê e se apaixona. Eu me apaixonei. Vou mostrar para os meus amigos de Dores do Indaiá e dizer pra eles: "Olha, a Stella é de lá, de Dores". E eles vão fazer assim com a sobrancelha e exclamar "Puxa! Ela é de lá então?" ou então vão pedir o livro emprestado pra ler. E agora, quando eu for ao Mercado Central comprar queijo canastra ou algum badulaque pras minhas palhaçarias, vou lembrar da Maria passeando por lá, vou comer um biscoito de queijo e lembrar dela. Dela e do rapaz de olhos muito negros. Talvez eu até dê uma esticadinha até a praça Raul Soares pra ver se ele vai estar lá, desenhando. Se estiver, vou ficar olhando, assim, meio de longe. Vai ver que o rosto que ele desenha é o meu. Agora vou retomar a leitura das Mil e Uma Noites. Stella, isso tudo que vai aí é uma tentativa de dizer o quanto o livro me arrebatou. Acabei de lê-lo exatamente agora – 22:11 do dia 17/9/11, um sábado quente e seco aqui no Oeste de Minas. Vou levar o livro segunda-feira para a escola – é, eu também sou professor (literatura – tem como ser professor de literatura?) – e vou recomendá-lo muito a meus alunos. Tenho a impressão de que as minhas alunas é que vão se apaixonar mais por ele. Penso que esses meninos precisam entender que eles podem ser maiores que aquilo que os seus nomes dizem. Que é possível sonhar outras vidas, outras possibilidades. Ou, mais simplesmente, que é preciso sonhar. Muito obrigado pelo prazer dessa leitura maravilhosa. Já vou atrás de outros de seus títulos. Quero entrar pro fã-clube também.

Juvenal Bernardes, professor de literatura e contador de histórias

In: email de setembro de 2011

 
Neste novo livro, Stella Maris Rezende mostrou que fantasia e realidade podem se misturar, e sim, pode dar certo. A mocinha do Mercado Central é a prova disso. Recheado de mistério, diversão, drama e realidade, o livro faz a gente entrar na vida de Maria Campos, ou Zoraida, Teresa, ou quem sabe, Simone, ou talvez Miriam. Pode ser também Nídia, Gilda e Selma. É um verdadeiro enigma. A gente sai de Dores do Indaiá e viaja para Brasília, "nome que parecia o feminino de Brasil". De Brasília partimos para São Francisco, "não da Califórnia, lógico, mas do norte de Minas", depois seguimos para São Paulo, Belo Horizonte, e então chegamos à cidade maravilhosa, Rio de Janeiro. "A próxima viagem seria para Cataguases", mas Maria mudou de itinerário, quando se lembrou que o Otto nascera em São João Del Rey, a cidade dos sinos. Deu vontade de conhecer essa tal cidade dos sinos, o lugar onde nascera o escritor engraçado que dizia que "escrever é de amargar"... Do Rio para São João Del Rey foram poucas horas de ônibus", e então, depois de todas essas viagens, retornamos para Dores do Indaiá, cheios de histórias para contar, com boa parte de tudo aquilo que um dia foi dúvida, esclarecido, com a notícia na qual sua mãe não acreditaria e também não gostaria nem de saber, com sua vida completamente mudada. As aventuras são contadas de tal forma que a gente começa a sentir, junto com a personagem, todas as suas angústias, medos, vontades, tudo, e então nos prende até as últimas páginas do livro. A única coisa que não senti foi arrependimento de ter lido o livro completo. Sofri, sorri, quase morri junto com a personagem, fui forte junto com ela e enfim descobrimos o que nas primeiras páginas eram enigmas. No fim, tudo se encaixa de maneira surpreendentemente surpreendente, deixando aquela vontade de ler mais, saber se vai haver alguma continuação ou então, a gente começa a fazer a nossa continuação, tornando-o um livro interessante, bom e saboroso de ler. Esse trabalho é diferente de tudo o que a Stella Maris Rezende já fez antes, totalmente diferente, com outras palavras, com outro olhar. Ela escreve para jovens e adolescentes, mas esse livro, na minha opinião, é total e altamente recomendado para todas as idades, e sem perder aquele toque mineiro que ela dá aos seus livros, "com cheiro de broinha de milho e café quentinho".

Daniel Ribeiro é estudante e faz parte do fã-clube da escritora

 
Mesmo tendo lido muitíssimos livros, apenas três me despertaram tristeza, pesar, e ainda assim felicidade sem tamanho ao chegar à última página, que foram: O Morro dos Ventos Uivantes, O Livro do Amor de Julia e Tomás e A mocinha do Mercado Central. Fiquei comovido, intrigado, feliz, amante, livre e acima de tudo satisfeito e contente. Senti um privilégio de ler. Como se depois das últimas linhas eu fosse a tia Marta, como se eu, o leitor, tivesse o verdadeiro privilégio de contar aquela história a mim mesmo. "Sob a pele das palavras há cifras e códigos". Na mesma hora eu sorri e me emocionei. Voltei à capa do livro e li: Stella Maris Rezende, e tive certeza. Ela, minha amiga, a quem eu admiro, mais uma vez "sob a pele das palavras" soube desvendar inúmeros códigos. Eu li esses códigos. Maria Campos. Selma. Nídia. Miriam. Simone. Zoraida. Teresa. Eu fui todos esses nomes em cada entrelinha, em cada palavra, parágrafo e capítulo. Eu pude sentir o cheiro do café, o gosto do biscoito de queijo e lembrar do moço que estava sentado naquela praça, desenhando. Eu senti a dor do menino cansado, eu vi a tristeza e a angústia na história da Bernardina Campos, e vi os olhos de piedade do Eugênio. Eu senti, eu me emocionei, eu vivi, mais uma vez, uma história. E eu penso ao chegar ao fim do livro: como é bom sentir essa história, como é bom ver esses personagens tomarem conta dessa atmosfera onde eu leio, e me impulsionarem a sentir, sentir e sentir. Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi, nem acabei. De tanto ser, só tenho alma. Mais uma vez eu me impressionando, emocionado e estando vidrado, amarrado por conta própria e apaixonado a cada palavra escrita em A mocinha do Mercado Central. São poucas as vezes em que podemos estar de frente a algo realmente emocionante. A escrita de Stella Maris Rezende me encantou, mais uma vez. "É mágico imaginar como cada mistério será desvendado ou apenas lembrado para sempre". As palavras falam sozinhas, sem precisar esboçar nenhum sentimento, apenas esperando que quem está lendo sinta, e, esse sim, desperte o sentimento em si. Stella Maris Rezende mais uma vez me emocionou, e me proporcionou uma das leituras mais intensas da minha vida.

Vinicius Vieira é estudante e faz parte do fã-clube da escritora

In: email de junho de 2011

 
Escreveram meu nome no arroz. Só algumas pessoas, de vez em quando, devem querer parar um pouco, pegar esse grão de arroz e ver dentro dele o mundo inteiro, porque dentro dele existe um trabalho, uma ternura, um esforço. E foi assim que me vi personagem deste romance saboroso e inventivo, escrito por uma pessoa que nem sequer conheço, mas que me encantou com sua escrita inspirada. Essa pessoa escreveu meu nome no arroz. E eu vi um mundo inteiro lá dentro. Para um sonhador, isso não foi pouca coisa. E as aventuras da menina protagonista deste livro encheram meus olhos e minha imaginação. Espero que aconteça o mesmo com quem estiver lendo estas linhas. Em tempos anêmicos, essa leitura faz sonhar e encher o peito de alegria. Aproveite bem o que tem nas mãos... Suspenda a correria e procure enxergar o que está escrito no arroz. A vida será bem melhor depois disso.

Selton Mello é ator e diretor de cinema

In: A mocinha do Mercado Central, il. Laurent Cardon, SP, Globo, 2011

 
Maria Campos. Este era o nome completo da mocinha do interior de Minas Gerais. Pouco, pensava ela. Principalmente se comparado ao da amiga Valentina Vitória Mendes Teixeira Couto. Faltava-lhe o sobrenome do pai, já que fora concebida em uma circunstância trágica. Mas o que pode representar de fato um nome? Valentina, a quem Maria no princípio acharia meio enxerida, e que acabou por se tornar uma grande amiga, sabia de cor o significado de todos eles. Da situação adversa, Maria tirou ideia que a colocaria em uma sequência de aventuras: adotaria em cada lugar por onde passasse uma personalidade que correspondesse ao sentido do nome escolhido. Este é o enredo do livro de Stella Maris Rezende, com ilustrações de Laurent Cardon e uma participação especial do ator Selton Mello, que não apenas faz a apresentação, como também aparece na história como referência afetiva para a personagem principal. A mocinha do Mercado Central tem a peculiaridade de se situar entre o romance, que narra o desenvolvimento de uma protagonista, e uma sequência de contos que se desenrolam em diferentes cidades por onde ela passa. A obra fala da vida em uma fase de transformações, cheia de descobertas e desafios. Fala, em síntese, do desejo de liberdade que só é alcançado com a coragem de se reinventar a cada nova relação. Mesmo estando em São Paulo, no Rio de Janeiro ou em Brasília, Maria nunca perde o jeito mineiro. E a narrativa de Stella Maris, cheia de lirismo e imaginação, mantém uma descrição vívida e realista das personagens e lugares, e garante a autora na tradição dos grandes prosadores das Gerais.

In: Catálogo da editora Globo, SP, 2011

 
"Não sei quantas almas tenho". O famoso verso de Fernando Pessoa está nas páginas deste livro, leitor. E você também está! Pode não saber, mas esta história tem algo de você, de toda gente. Pra entender bem, precisará conhecer Maria Campos, a mocinha do Mercado Central. Ela passeará diante dos seus olhos, passando por diferentes cidades brasileiras. Se prestar bastante atenção, vai ver que o sotaque do livro é mineiro, que ele tem gosto de pão de queijo e uma descoberta a cada capítulo. Prepare-se para maravilhas, tristezas, sonhos e reviravoltas. Mais que tudo: abra o coração e se emocione com a escrita íntima e delicada de Stella Maris Rezende. Por fim, talvez encontre outras almas que tem dentro de si.

Ricardo Benevides é doutor em Literatura Comparada, professor e escritor

In: A mocinha do Mercado Central, il. Laurent Cardon, SP, Globo, 2011

 
O denominado "romance de formação" é pouco explorado na literatura brasileira. Por outro lado, trata-se de um gênero literário de importância singular para se entender a complexidade do mundo jovem. Stella Maris Rezende pincelou em A mocinha do Mercado Central, com maestria e talento, o mundo subjetivo da mocidade. E uso de propósito o vocábulo desusado. Mocidade. Para combinar com as fórmulas mágicas da autora, que consegue mergulhar em nostalgia de um Brasil que aprecia o "bem-te-vi" e é, simultaneamente, contemporâneo. As páginas transitam de uma aparente inocente ingenuidade até os conflitos existenciais mais complexos, numa sofisticação que garante ao livro um lugar privilegiado para a doce e difícil aventura de viver. Pinço, ao acaso, o psicodrama do personagem Tadeuzinho, um menino de apenas oito anos que estava cansado, muito cansado, e morreu. Mas antes de morrer pedia e pedia para ouvir histórias. Uma autêntica saga de Sherazade em que a narrativa sustenta a vida, que por sua vez empresta sentido ao mágico e transcendente. E este mágico e transcendente que recolhe na melhor tradição brasileira, mineiridade pura, mas que também se envolve com Fernando Pessoa. Cinema, literatura, teatro, o romance de Stella é um roteiro de filme nas retinas de todas as idades. A ficção e o concreto dançam entre as divagações e a prosa. Uma prosa que lembra, profundamente, o fluxo inconsciente da psicanálise e, por isso, o mais moderno do que se produz hoje no campo da Estética. Tristeza e alegria, dúvidas e certezas são o material fervente deste livro de cabeceira na era vertiginosa da internet e dos satélites que precisam conviver com a ternura, o sonho, a esperança. Este livro-roteiro no caminhar das ruas, nos monólogos e diálogos, nos envolvimentos, desenha o percurso perturbado e perturbador, agridoce na suavidade de como se caminha, caminhando.

In: A mocinha do Mercado Central, il. Laurent Cardon, SP, Globo, 2011

Jacob Pinheiro Goldberg é doutor em psicologia e escritor

 

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