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Resenhas sobre "Dentro das lamparinas"

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Dentro das lamparinas Luiz Vilela
Recebi o Dentro das lamparinas. De cara eu vi que estava diante de uma escritora – não uma pretendente a escritora ou escrevinhadora de livros, mas uma escritora de verdade. Além de escrever uma prosa de ótima qualidade, Stela Maris tem um talento indiscutível para a ficção. E como se não bastasse tudo isso, Stela Maris é também pintora. Gostei de suas ilustrações; notei nelas o mesmo cuidado, a mesma firmeza e a mesma emoção que notei no seu texto. Não resta dúvida, “a mineira que vive no planalto central” é uma pessoa excepcional – e descobrir alguém assim hoje, num tempo tão medíocre como o nosso é no mínimo reconfortante”.

Luiz Vilela é escritor premiado, um dos maiores ficcionistas da Literatura Brasileira

In: Suplemento Cultural do Jornal de Minas, 16 de novembro de 1980

 
Dentro das lamparinas Miguel Jorge
Curioso notar o aparecimento de nomes na literatura feita no Brasil. E importante é falar da consciência desses novos escritores, que completam um círculo evolutivo de um trabalho de pesquisa, técnica, observação, estudo. Stela Maris Rezende é um desses nomes, aparecendo com “Dentro das lamparinas”, (editora Horizonte, Brasília), num momento auspicioso de produção literária, caminhando firme pelo tão usado, mas não desgastado caminho do conto, com olhos bem abertos para os problemas sociais de Brasília e periferia, ou do Brasil, sem correr o risco de ficar ou parar no regional, imprimindo, inteligentemente, o cunho universal e universalizante em seus textos literários. Os personagens criados por Stela Maris são retirados do comum cotidiano, com o humor do próprio brasileiro frente às suas desgraças. São homens e mulheres facilmente identificáveis pela ruas de Taguatinga ou Brasília. São tipos humanos daqui e dali, que nada desejam além do mínimo necessário para sobreviverem com dignidade: “À frente do cacetete e do revólver Pedro Pinóia vira uma esquina e o carrossel começa a parar, de mansinho, porque acabou uma roda. Outras crianças com bilhetes coloridos nas mãos estão pulando, felizes, aguardando sua vez de brincar”. (Aguardando Sua Vez de Brincar, páginas 33 e 34). O leitor vai deparar-se com um discurso fluente, correndo muito à vontade, vindo do interior da escritora, com imagens nítidas, diálogos bem estruturados. Nessa mesma ordem de idéias a contista opta pelo conto breve, a narrativa curtíssima, mas densa, construída com os tecidos achados no dia-a-dia. Vejam o exemplo de O Aposentado, páginas 119 a 121: “Atravesso a avenida, um pouco nervoso, os carros não param, não há sinaleiro nessa maldita avenida, anteontem aconteceu um desastre bárbaro bem perto de onde estou andando agora, com os meus sapatos de mocassim. Já estou próximo ao amontoado de pessoas que se empurram, todos querendo ver alguma coisa, deve ser uma coisa estupenda, uma briga de malandros, uma tragédia, sei lá”. A linguagem usada por Stela Maris Rezende é simples, direta, às vezes comovente, muitas vezes transparente de poesia. Outras vezes a contista deixa-se perder pelo excesso de realismo, colocando o falar “roceiro” na boca do seu personagem tal qual se ouve por aí, nas regiões carentes de cultura e de outros benefícios materiais. Mas, na maioria das vezes, Stela Maris nos surpreende com a angústia de seu personagem, e então, sua narrativa passa a existir com o clima do monólogo interior, das reflexões da vida e sobre a vida, o relacionamento apressado das grandes cidades, a violência, a falta de solidariedade humana, a disputa pelo sobreviver, marcando também, em outros contos, a cadência descompassada, num ritmo lento, personalizado pelas pessoas que vivem nas cidades-satélites, ou em grupos de casas brotados como cogumelos ao redor das rodovias. Não se pode deixar de mencionar o conto intitulado Pelos Becos Afora, construído inteiramente com diálogos entre Piedade e Antônio. A escritora imprime força, enredo, movimento, coisa difícil para quem está lançando o primeiro livro. Felizmente amadurecido.

Miguel Jorge é escritor

Jornal O POPULAR. Goiânia, domingo, 19 de maio de 1980

 
Dentro das lamparinas Terezinha Alvarenga
Ainda dizem que Brasília é uma cidade sem alma. Imaginem se fosse, né, Stela? Você que é daí, que o diga... A Stela, que está dentro das lamparinas, manda tanta brasa, isto é, calor humano, em seu livro de conto-crônicas, que dá para esquentar qualquer frio que anda por aqui. A moça de Brasília deu mesmo uma guinada de gente com jeito de mineira, quando sobe a Serra do Curral Del Rei, e cata a alma das pessoas no horizonte:
“A mulher continua rindo, os olhos miúdos são engolidos pela bochechas murchas. Ele tira o resto de gordura das mãos com uma ponta de camisa. Ergue os olhos e vira o rosto. Vê ao longe, embaçada e triste, a Praça dos Três Poderes”.
Em quase todo o livro a Stela está solta, sem medo. Já cortou o cordão umbilical do autor do diz-que-diz. Sentimos uma mineira de cá das bandas do Nordeste. Com raízes e tudo. Veja isto aqui: “Nos bancos enfileirados os corpos sentados com as pernas cruzadas, com as pernas encolhidas. Os rostos que não dizem coisa alguma. Os olhos de todos. Com um brilho sombrio, uma luz sem direção. Nas bocas um riso tosco que mais parece uma careta repetitiva e angustiante.” Bom, há contos que mais são crônicas e Stela fica com medo de dizer tudo e prende a língua, coisinha pequena. Dentro das lamaparinas tem qualidade em nível definitivo. E Stela não agrediu, não apelou, estreou com classe e fôlego dos que nascem já para transmitirem. Sentimento e sensibilidade giram em cores vivas e cinematográficas. Ela contou, narrou, dialogou e bem, voou alto quase sem rasantes. Para uma estreante, seu livro é muito bom mesmo. Não fica nesta, a bondade da Stela, também ilustrou todos os contos, alguns são realmente próprios de uma pintora, que além de talentosa, é firme. Stela soube achar um título para cada conto. Assim de estalo e com febre de curiosidade, está curiosa, hem, Stela? fiquei impressionada com a capacidade de encontrar títulos tão fortes e chamativos. Li o livro pelos títulos: “Mato da Lenha”, muito bom conto, e com muita lenha no mato da Stela:
“- Eh, menina, tu também quer se banhar? - Posso? - Pula depressa que seu tio já vem”.
E andando pelas lamparinas da Stela, esbarramos com um e outro, mais outro título chamativo: “Pelo Becos Afora”... Mas no beco da Stela tem gente espiando... Seu beco, Stela, ficou muito bem dialogado. Não é novidade, mas é qualidade fazer um conto dialogado. Todinho.
“- Um beijo, Piedade... - Que beijo qual nada! Me larga, Antônio! Me deixa passar.”
E em Tachos e Gamelas há melados e outros babados na fervura da Stela. De repente a língua da autora solta em poema, Filhos da Chuva, gostoso e molhado:
“Chuva sonhada: Arrasta pedras e latas De esperança Pelas ruas onde cantam Os filhos desse povo - pode ser amanhã.”

Terezinha Alvarenga é escritora premiada e editora

Jornal Estado de Minas, outubro de 1980

 
Cara Stela Maris, Gostei muito dos seus contos. Você nos dá uma série de flagrantes – admiráveis alguns, sempre interessantes os demais - da vida das criaturas pequenas, oprimidas, de horizontes fechados. Um livro que comove pela bela forma literária e pela humanidade dos tipos que traz à convivência do leitor. Livro triste. Mas pode haver livro alegre, quando o autor tem, como você, a consciência lúcida e desperta? Com um abraço, mando-lhe os meus cumprimentos pela estréia.

Cyro dos Anjos foi membro da Academia Brasileira de Letras e é um dos clássicos da Literatura Brasileira, autor de “O amanuense Belmiro” e “Menina do sobrado”, entre outros. Foi professor de Stela Maris, na disciplina Oficina Literária, Universidade de Brasília. In: Dentro das lamparinas. Brasília, Horizonte, 1979

 

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